quarta-feira, 30 de maio de 2012

Chico Anysio, no Céu.







Descomplicar


Texto atribuído à Leila Ferreira, jornalista.
Contribuição de Lúcia Marina Galvão de Queirós

Se eu tivesse que escolher uma palavra - apenas uma - para ser item obrigatório no vocabulário da mulher de hoje, essa palavra seria um verbo de quatro sílabas:
            
"DESCOMPLICAR."
Depois de infinitas (e imensas) conquistas, acho que está passando da hora de aprendermos a viver com mais leveza: exigir menos dos outros e de nós próprias, cobrar menos, reclamar menos, carregar menos culpa, olhar menos para o espelho.
Descomplicar talvez seja o atalho mais seguro para chegarmos à tão falada qualidade de vida que queremos - e merecemos - ter.
Mas há outras palavras que não podem faltar no kit existencial da mulher moderna.

Amizades, por exemplo....
 Acostumadas a concentrar nossos sentimentos (e nossa energia...) nas relações amorosas, acabamos deixando as amigas em segundo plano.
E nada, mas nada mesmo, faz tão bem para uma mulher quanto a convivência com as amigas. Ir ao cinema com elas (que gostam dos mesmos filmes que a gente), sair sem ter hora para voltar, compartilhar uma caipivodca de morango e repetir as histórias que já nos contamos mil vezes - isso, sim, faz bem para a pele.
Para a alma, então, nem se fala.
Ao menos uma vez por mês, deixe o marido ou o namorado em casa, prometa-se que não vai ligar para ele nem uma vez (desligue o celular, se for preciso) e desfrute os prazeres que só uma boa amizade consegue proporcionar.
E, já que falamos em desligar o celular, incorpore ao seu vocabulário duas palavras que têm estado ausentes do cotidiano feminino: pausa e silêncio.
Aprenda a parar, nem que seja por cinco minutos, três vezes por semana, duas vezes por mês, ou uma vez por dia - não importa - e a ficar em silêncio.
Essas pausas silenciosas nos permitem refletir, contar até 100 antes de uma decisão importante, entender melhor os próprios sentimentos, reencontrar a serenidade e o equilíbrio quando é preciso.
Também abra espaço, no vocabulário e no cotidiano, para o verbo rir.
Não há creme anti-idade nem botox que salve a expressão de uma mulher mal-humorada. Azedume e amargura são palavras que devem ser banidas do nosso dia a dia.
Se for preciso, pegue uma comédia na locadora, preste atenção na conversa de duas crianças, marque um encontro com aquela amiga engraçada - faça qualquer coisa, mas ria. O riso nos salva de nós mesmas, cura nossas angústias e nos reconcilia com a vida.
Quanto à palavra dieta, cuidado: mulheres que falam em regime o tempo todo costumam ser péssimas companhias. Deixe para discutir carboidratos e afins no banheiro feminino ou no consultório do endocrinologista. Nas mesas de restaurantes, nem pensar.
Se for para ficar contando calorias, descrevendo a própria culpa e olhando para a sobremesa do companheiro de mesa com reprovação e inveja, melhor ficar em casa e desfrutar sua salada de alface e seu chá verde sozinha.
Uma sugestão? Tente trocar a obsessão pela dieta por outra palavra que, essa sim, deveria guiar nossos atos 24 horas por dia: gentileza.
Ter classe não é usar roupas de grife: é ser delicada.
Saber se comportar é infinitamente mais importante do que saber se vestir.
Resgate aquele velho exercício que anda esquecido: aprenda a se colocar no lugar do outro, e trate-o como você gostaria de ser tratada, seja no trânsito, na fila do banco, na empresa onde trabalha, em casa, no supermercado, na academia.

E, para encerrar, não deixe de conjugar dois verbos que deveriam ser indissociáveis da vida: sonhar e recomeçar.

Sonhe com aquela viagem ao exterior, aquele fim de semana na praia, o curso que você ainda vai fazer, a promoção que vai conquistar um dia, aquele homem que um dia (quem sabe?) ainda vai ser seu, sonhe que está beijando o Brad Pitt...sonhar é quase fazer acontecer. Sonhe até que aconteça.

E recomece, sempre que for preciso: seja na carreira, na vida amorosa, nos relacionamentos familiares.
A vida nos dá um espaço de manobra: use-o para reinventar a si mesma.
E, por último (agora, sim, encerrando), risque do seu Aurélio a palavra perfeição.
O dicionário das mulheres interessantes inclui fragilidades, inseguranças, limites.
Pare de brigar com você mesma para ser a mãe perfeita, a dona de casa impecável, a profissional que sabe tudo, a mulher nota mil.

Acima de tudo, elimine de sua vida o desgaste que é tentar ter coxas sem celulite, rosto sem rugas, cabelos que não arrepiam, bumbum que encara qualquer biquíni.
Mulheres reais são mulheres imperfeitas.
E mulheres que se aceitam como imperfeitas são mulheres livres.
Viver não é (e nunca foi) fácil, mas, quando se elimina o excesso de peso da bagagem (e a busca da perfeição pesa toneladas), a tão sonhada felicidade fica muito mais possível.
Se voce puder mandar a todas as mulheres lindas e maravilhosas que fazem parte da tua vida, mande...
 e para aqueles homens que também fazem a alegria de seus dias,( e noites....) não hesite!

segunda-feira, 28 de maio de 2012

O que as mulheres fazem quando estão com elas mesmas


Texto de autoria de Ivan Martins, diretor executivo da Revista Época.
Colaboração de Lúcia Marina Galvão de Queirós

Ontem eu levei uma bronca da minha prima. Como leitora regular desta coluna, ela se queixou, docemente, de que eu às vezes escrevo sobre “solidão feminina” com alguma incompreensão.
Ao ler o que eu escrevo, ela disse, as pessoas podem ter a impressão de que as mulheres sozinhas estão todas desesperadas – e não é assim. Muitas mulheres estão sozinhas e estão bem. Escolhem ficar assim, mesmo tendo alternativas. Saem com um sujeito lá e outro aqui, mas acham que nenhum deles cabe na vida delas. Nessa circunstância, decidem continuar sozinhas.
Minha prima sabe do que está falando. Ela foi casada muito tempo, tem duas filhas adoráveis, ela mesma é uma mulher muito bonita, batalhadora, independente – e mora sozinha.
Ontem, enquanto a gente tomava uma taça de vinho e comia uma tortilha ruim no centro de São Paulo, ela me lembrou de uma coisa importante sobre as mulheres: o prazer que elas têm de estar com elas mesmas.
“Eu gosto de cuidar do cabelo, passar meus cremes, sentar no sofá com a cachorra nos pés e curtir a minha casa”, disse a prima. “Não preciso de mais ninguém para me sentir feliz nessas horas”.
Faz alguns anos, eu estava perdidamente apaixonado por uma moça e, para meu desespero, ela dizia e fazia coisas semelhantes ao que conta a minha prima. Gostava de deitar na banheira, de acender velas, de ficar ouvindo música ou ler. Sozinha. E eu sentia ciúme daquela felicidade sem mim, achava que era um sintoma de falta de amor.
Hoje, olhando para trás, acho que não tinha falta de amor ali. Eu que era desesperado, inseguro, carente. Tivesse deixado a mulher em paz, com os silêncios e os sais de banho dela, e talvez tudo tivesse andado melhor do que andou.

Ontem, ao conversar com a minha prima, me voltou muito claro uma percepção que sempre me pareceu assombrosamente evidente: a riqueza da vida interior das mulheres comparada à vida interior dos homens, que é muito mais pobre.

A capacidade de estar só e de se distrair consigo mesma revela alguma densidade interior, mostra que as mulheres (mais que os homens) cultivam uma reserva de calma e uma capacidade de diálogo interno que muitos homens simplesmente desconhecem.

A maior parte dos homens parece permanentemente voltada para fora. Despeja seus conflitos interiores no mundo, alterando o que está em volta. Transforma o mundo para se distrair, para não ter de olhar para dentro, onde dói.

Talvez por essa razão a cultura masculina seja gregária, mundana, ruidosa. Realizadora, também, claro. Quantas vuvuzelas é preciso soprar para abafar o silêncio interior? Quantas catedrais para preencher o meu vazio? Quantas guerras e quantas mortes para saciar o ódio incompreensível que me consome?

A cultura feminina não é assim. Ou não era, porque o mundo, desse ponto de vista, está se tornando masculinizado. Todo mundo está fazendo barulho. Todo mundo está sublimando as dores íntimas em fanfarra externa. Homens e mulheres estão voltados para fora, tentando fervorosamente praticar a negligência pela vida interior – com apoio da publicidade.

Se todo mundo ficar em casa com os seus sentimentos, quem vai comprar todas as bugigangas, as beberagens e os serviços que o pessoal está vendendo por aí, 24 horas por dia, sete dias por semana? Tem de ser superficial e feliz. Gastando – senão a economia não anda.

Para encerrar, eu não acho que as diferenças entre homens e mulheres sejam inatas. Nós não nascemos assim. Não acredito que esteja em nossos genes. Somos ensinados a ser o que somos.

Homens saem para o mundo e o transformam, enquanto as mulheres mastigam seus sentimentos, bons e maus, e os passam adiante, na rotina da casa. Tem sido assim por gerações e só agora começa a mudar. O que virá da transformação é difícil dizer.

Mas, enquanto isso não muda, talvez seja importante não subestimar a cultura feminina. Não imaginar, por exemplo, que atrás de toda solidão há desespero. Ou que atrás de todo silêncio há tristeza ou melancolia. Pode haver escolha.

Como diz a minha prima, ficar em casa sem companhia pode ser um bom programa – desde que as pessoas gostem de si mesmas e sejam capazes de suportar os seus próprios pensamentos. Nem sempre é fácil.


 


sexta-feira, 25 de maio de 2012

Vamos Falar de Deus?


A EXISTÊNCIA DE DEUS
                                           Agenor Portelli Teixeira Magalhães


Talvez meu maior sonho seja um disco voador pousando na terra e trazendo seres extraterrestres inteligentes. Sei que os monoteístas torcem para isso não acontecer, pois temem que as escrituras sagradas percam sua credibilidade. Deus teria criado a terra e o ser humano com exclusividade no nosso planeta. A existência de dois mundos habitáveis destruiria a teoria da criação. Não é bem assim, dois mundos em paralelo, em minha opinião, reforçariam a presença de uma força criadora divina. As condições que propiciaram o início da vida na terra não teriam probabilidade de ocorrer outra vez se não houvesse um método criativo.
Quando escrevi Os Gênios do Gênesis há cerca de cinco anos, enviei o texto para meia dúzia de pastores e a alguns amigos. Um dos pastores que o recebeu remeteu para um especialista em história religiosa para comentar meu trabalho. Nenhum respondeu, exceto o filho de um pastor que recusou as comparações que fiz entre a criação do mundo sob o enfoque bíblico e o big bang da ciência. Disse ele com outras palavras que o universo é tão perfeito que não poderia ser obra do acaso.
Passados três anos, o jurista Ives Gandra, em artigo no JB, intitulado Fiat Lux, resumiu minha teoria comparativa tal qual eu havia elaborado, sem reconhecer meus créditos, ou por desconhecer o meu trabalho ou por uma coincidência incrível, já que expôs de forma tão semelhante o meu raciocínio primordial. Mais recentemente, tornou-se comum encontrar em artigos sobre o universo e o big bang menção a semelhanças entre a narrativa bíblica da criação e o átomo original que desencadeou a formação do céu, da terra, das águas, enfim do universo. Tenho o direito de acreditar que estou formando discípulos.
O escritor e colunista do JB Fausto Wolf, que sempre faço questão de frisar, era um comunista de primeira linha, mas que entre um texto e outro celebrava a existência de Deus com respeito, embora não demonstrasse claramente sua crença. Pois bem, em um dos seus últimos escritos publicados no jornal em agosto de 2008, antes de morrer, ele faz uma descrição da criação divina muito parecida com Os Gênios do Gênesis, considerando que entre um feito e outro Deus dormia milhões de anos. Ao invés da formula matemática que exprimi em torno do número místico 7, ele usou de sutileza, debitando o intervalo homérico de tempo a um sono profundo do Criador.
Ao contrário do que muitos leigos pensam a respeito do universo, achando que tudo já foi decifrado e explicado por Einstein e sua teoria da relatividade, e descrito por Timothy Ferris, a verdade é que nada sabemos sobre nós mesmos e sobre esse cosmos inexplicável. O acelerador de partículas criado por cientistas franceses e suíços, para confirmar a existência da partícula bóson de Higgs, deverá reproduzir as condições existentes no cosmos um trilionésimo de segundo depois do Big Bang e vai comprovar o que já sabemos, pelo menos eu sei: Deus é o Bóson de Higgs. Se o bóson não surgir, como muitos cientistas torcem para não acontecer, a comprovação da existência de Deus fica adiada até que novas teorias surjam sobre a criação do universo.

quarta-feira, 23 de maio de 2012

D'ALÉM MAR JÁ HOUVE... E D'AQUÉM, HAVERÁ TAMBÉM?

 
CONTRIBUIÇÃO DE TALITA BATISTA. 
 
QUE, COMO NÓS, SEUS COMPANHEIROS NESTE BLOG, ESTÁ LAMENTANDO E RATIFICANDO A SENSAÇÃO QUE TEMOS DE UM ESTADO QUE SE ANULA, ENQUANTO AS INSTITUIÇÕES SE DESMORONAM.

sábado, 19 de maio de 2012

Verdade dos fatos por Reinaldo Azevedo

PULICADO EM 16 DE MAIO DE 2012, NA REVISTA VEJA.
OUTRA VISÃO SOBRE A"COMISSÃO DA VERDADE:QUANDO A SUPOSTA DIALÉTICA DA HISTORIA VIRA DISCURSO ESQUIZOFRÊNICO" OU  "A GRANDE FALHA LÓGICA DO DISCURSO DA PRESIDENTA".

Caras e caros, de braços dados com a história e a lógica, acho que escrevi o meu melhor texto sobre a Comissão da Verdade. Avaliem.
*
A presidente Dilma Rousseff realizou hoje a solenidade de instalação da dita “Comissão da Verdade” (ver post anterior). Escrevi nesta manhã
um longo texto a respeito. Também a mim não me moveu o revanchismo! Até porque tomei algumas bordoadas na luta pela redemocratização do país e tive de aguentar um “agente do regime” no meu pé quando tinha meros 16 anos… Não fui torturado como Dilma nem me tornei o burguês das lutas alheias, como o companheiro “ApeDELTA”, que nunca sofreu, felizmente, um arranhão, embora receba pensão permanente por ter sido “molestado” pela ditadura. A grana deve andar, aí, em torno de R$ 6 mil por mês. Continuo o apaixonado de sempre pelos fatos — aos 16, a minha perspectiva era certamente outra, mas já me incomodava a ideia de que o Estado pudesse sufocar os indivíduos com as suas verdades, a despeito dos… fatos! Por isso me fiz, vamos dizer assim, um “rebelde”. Por isso continuo, vamos dizer assim, um “rebelde”.
Eu me dei conta esses dias de que fui crítico, a cada hora numa trincheira, de todos os governos de Geisel pra cá. E, hoje, costumo bater boca, ainda que indiretamente, com sumidades que apoiaram todos os governos — de Geisel pra cá!!! São mais inteligentes do que eu, claro! O “progressismo” já fez verdadeiros milionários no Brasil. Fui de esquerda quando dava prejuízo. Deixei de sê-lo quando passou a dar lucro! Sujeito burro!!!
Sim, o tempo foi me convencendo, e já há muito é uma convicção da qual não abro mão, de que a democracia é mesmo o pior regime de governo possível, com a exceção de todos os outros, como disse aquele do uísque com charuto… Não é o modelo perfeito, mas é o que permite, ao menos, tratar as diferenças sem ter de avançar no pescoço alheio. Na democracia, “pacta sunt servanda“. E fim de papo! Vale o combinado. Os acordos têm de ser cumpridos. Os contratos não podem ser desrespeitados.
É o contrário do que pensa boa parte — se é que não se fala da totalidade — das esquerdas. Costumam apelar à chamada “dialética da história” para sustentar que leis, mesmo democraticamente instituídas, podem e devem ser desrespeitadas se essa for “a vontade da sociedade”. Chamam de “vontade da sociedade” a pauta que elas próprias definem. Dos 16 aos, mais ou menos, 21, também cheguei a acreditar nisso. Quando descobri que era a porta de entrada de todos os males do mundo; quando me dei conta de que essa perspectiva correspondia à morte do humanismo — à medida que ela não comporta qualquer princípio inegociável —, caí fora! Constatei que se tratava de um mal superior àqueles outros que eu combatia (e que continuo a combater) porque, em nome da resistência e de um mundo alternativo, então tudo era possível. Se me era dado combater o que considerava “imoralidade alheia” com a ausência da moral (coisa de “burgueses”), então a diferença entre “nós” e “eles” é que o mal que preconizávamos não tinha limites. A nossa vantagem comparativa estava em surpreendê-los usando seus métodos detestáveis e indo muito além. É claro que passei a repudiar essa visão de mundo de modo absoluto.
Pois bem. Dilma instalou nesta quarta a Comissão da Verdade. Negou a perspectiva revanchista, embora as declarações de pelo menos três membros do grupo — Maria Rosa Cardoso da Cunha, Paulo Sérgio Pinheiro e Maria Rita Kehl — afrontem de forma clara o texto da lei. Dizem com todas as letras — e contra a letra legal, reitero — que o objetivo da comissão é apurar as transgressões aos direitos cometidas apenas por um dos lados. A Comissão da Verdade não reconheceria (e não reconhecerá), assim, as mais de 120 vítimas que as esquerdas também fizeram no país. É mentira, mentira absoluta, que toda a cadeia de comando que resultou nessas mortes tenha sido identificada. Ao contrário até: assassinos notórios, ou seus partidários, passaram a receber, diretamente ou por meio de familiares, indenização do estado. Não adianta me xingar, me ofender, nada disso. Se puderem, neguem a evidência. Se não puderem, tenham ao menos a coragem de defender que alguns são maus assassinos, e outros, bons assassinos.
No discurso de instalação da comissão, afirmou a presidente:
“Ao instalar a Comissão Nacional da Verdade, não nos move o revanchismo, o ódio ou o desejo de reescrever a história de forma diferente do que aconteceu, e sim a necessidade imperiosa de conhecê-la em sua plenitude, sem ocultamentos, sem vetos. É a celebração da transparência da verdade de uma nação que vem trilhando um caminho da democracia. O Brasil deve render homenagens a mulheres e homens que lutaram pela revelação da verdade histórica. O direito à verdade é tão sagrado quanto o direito de famílias de prantear pelos seus entes queridos. Reverencio os que lutaram contra a truculência ilegal do estado e também reconheço e valorizo os pactos políticos que nos levaram à redemocratização”.
Parece bom, mas é a esquizofrenia histórica se fingindo de dialética. Se é mesmo uma história “sem ocultamentos”, então a verdade sobre alguns grupos tratados como defensores da democracia tem de ser devidamente caracterizada. Não é possível que organizações como Colina, VPR e VAR-Palmares, que a presidente conhece muito bem, sejam alçadas à condição de heroínas do regime democrático. Atenção! Nada, nada mesmo, justifica que um agente do estado resolvesse fazer “justiça” com as próprias mãos! Condenar esse expediente, no entanto, não muda a convicção daqueles que queriam uma ditadura socialista no Brasil. E, em nome disso, também mataram. Se a inocência não era um limite para os torturadores e agentes dos porões, foi, por acaso, limite para muitos daqueles militantes?
Dilma diz reverenciar os que “lutaram contra a truculência legal”. Certo! Quando Larmarca, volto ao caso, esmagou o crânio de um tenente da Polícia Militar, depois de um “julgamento” feito no meio do mato por seus pares de terror, ele estava lutando “contra a truculência legal”? Quando uma associação de grupos de esquerda decidiu jogar um carro-bomba contra um quartel, fazendo em pedaços um jovem de 18 anos — Mário Kozel Filho —, tratava-se tal ação de “luta contra a truculência legal”? Quando os próprios esquerdistas assassinaram alguns dos seus, suspeitos de colaboracionismo, era “luta contra a truculência legal”?
A linguagem trai
Como é mesmo? As palavras fazem sentido!!! A gramática existe não apenas para expor a ignorância do JEG. Também é um instrumento para aclarar pensamentos. Prestem atenção a este trecho da fala da presidente:
“Reverencio os que lutaram contra a truculência ilegal do estado e também reconheço e valorizo os pactos políticos que nos levaram à redemocratização”.
Sabem os gramáticos — e preciso sempre tomar cuidado porque tenho um dos melhores entre meus leitores, Luiz Antônio Sacconi, dono de vastíssima obra na área — que a conjunção aditiva “e” pode ser empregada como conjunção adversativa, pode valer por um “mas”, a exemplo do que faz Dilma. Sua fala pode ser reescrita assim, sem que mude o sentido do que disse:
“Reverencio os que lutaram contra a truculência ilegal do estado, mas também reconheço e valorizo os pactos políticos que nos levaram à redemocratização”.
Resta evidente em sua peroração a existência de uma contradição entre “os que lutaram contra a truculência” e “os pactos políticos que nos levaram à redemocratização”. Ao optar por esse discurso, ela se revela e se trai também na esfera da linguagem. Ela se revela ao admitir que entende a Lei da Anistia como algo que caminhou no sentido contrário aos interesses daqueles supostos heróis “que lutaram contra a truculência”. Mas ela também se trai ao assumir que, satisfeita a visão de mundo daquela turma, certamente não se alcançariam os “pactos políticos que nos levaram à redemocratização”. Vale dizer, por dedução lógica inescapável: se a Lei da Anistia era incompatível com aquela turma, aquela turma era incompatível com a Lei da Anistia.
Não posso fazer nada: eu opero com categorias lógicas. Eu me nego a me deixar enrolar pela retórica oca, pela grandiloquência do… ocultamento!
Algum retórico do Planalto emprestou um coquetel de figuras de linguagem à presidente, que afirmou:
“A ignorância sobre a história não pacifica. Pelo contrário, mantém latentes mágoas e rancores. A desinformação não ajuda a apaziguar. O Brasil merece a verdade. As novas gerações merecem a verdade. Merecem a verdade factual também aqueles que perderam amigos e parentes. O Brasil não pode se furtar a conhecer a totalidade de sua história. Se tem filhos sem pais, túmulos sem corpos, nunca pode existir uma história sem voz”.
Perfeito! Se é o Brasil pacificado que instala essa “Comissão da Verdade”, então, por definição, toda a verdade tem de ser contada, também a das vítimas dos grupos terroristas — ainda que a “comissão” queira chamá-los “revolucionários” ou “amantes da democracia” (o que é mentira!). À diferença do que dizem os petralhas, aceito, sim, pontos de vista diferentes dos meus. Desde que se apontem as falhas lógicas ou as falsidades deste texto.

Quando falar é agredir

                                      :: Flávio Gikovate ::

Há opiniões discrepantes em relação às pessoas que são muito cuidadosas e delicadas quando expressam seu ponto de vista especialmente sobre temas polêmicos. Alguns as julgam falsas e hipócritas, pois escolhem as palavras com o intuito de agradar o interlocutor. Resultado: desconfia-se de sua sinceridade. Outros, porém, pensam de forma diferente. Acham que são espíritos mais atentos, preocupados em não ser invasivos e grosseiros. Tomam cuidado, sim, porque não gostariam, em hipótese alguma, de magoar a pessoa com a qual estão conversando.
Pode parecer também que o tipo mais espontâneo e sincero é mais veemente na defesa de suas idéias, enquanto o mais delicado tem menos interesse em fazer prevalecer seu ponto de vista, ficando sempre “em cima do muro”. Embora muitas vezes tais considerações sejam verdadeiras, penso que não é tão simples fazer a avaliação da conduta mais adequada. Esse assunto não só envolve questões morais, mas diz respeito à eficácia da comunicação entre as pessoas.
Sob o aspecto moral, a preocupação com o outro se impõe sempre. Ser honestos e sinceros não nos dá o direito de dizer tudo que pensamos. A franqueza pode ser prejudicial. Por exemplo, se uma pessoa, ao encontrar um amigo de rosto abatido, falar: “Puxa, como você está pálido! Até parece doente”, estará sendo sincera, mas tremendamente insensível. A verdade não subtrai o caráter agressivo da afirmação; pelo contrário o acentua. Na prática, acredito que uma boa forma de avaliar uma ação é pelo resultado. Se o efeito for destrutivo, a ação será nociva, independentemente da “boa intenção” daquele que a praticou.
A tese de que devemos falar tudo o que pensamos é ainda mais indefensável quando o objetivo é facilitar o entendimento e a comunicação. Indiscutivelmente o ser humano é vaidoso e, se se sentir ofendido por alguma palavra ou atitude do outro, acabará desenvolvendo uma postura negativa em relação a essa pessoa. Se alguém iniciar uma frase com expressões do tipo “Você não percebe nada”, “Qualquer idiota é capaz de compreender que...”, elas provocarão uma espécie de surdez imediata. Não ouviremos o resto do argumento ou então o ouviremos com o intuito de encontrar bons raciocínios para derrubá-lo.
Quando a gente se expressa, é preciso ter extremo cuidado com as palavras, pois elas atingem positiva ou negativamente o interlocutor. No processo de comunicação, a recepção é tão importante quanto a emissão dos sinais. Temos que nos lembrar disso se quisermos agir de modo construtivo para nós e para os demais. O descaso pelo “receptor” indica desrespeito moral e agressividade (voluntária ou não). Há pessoas que só têm interesse em mostrar como são perspicazes e brilhantes. Querem ficar por cima. Querem ensinar e não aprender. Despertam raiva, não admiração, pois a arte de seduzir caminha exatamente na direção oposta. Um homem (ou uma mulher) atraente faz o outro se sentir bonito, legal e inteligente. Prefere dar atenção a repetir o tempo todo “Como sou bárbaro e maravilhoso”.
Qual a pessoa que gosta de se aproximar de alguém cujo objetivo principal e a autopromoção constante? Quem atura discursos intermináveis baseados num narcisismo oco? Praticamente ninguém. O descaso pelo interlocutor é, a meu ver, fruto de um individualismo acirrado e oculta o desejo inconsciente de se dar mal na vida.

O Liceu do Meu Tempo


O tempo em que minha geração estudou no Liceu de Humanidades de Campos foi o dos anos sessenta, período marcado por importantes acontecimentos na vida nacional e pela fase mais saudosa de nossa juventude.
No início da década de sessenta, o governo de Juscelino Kubitschek realizava transformações de grande alcance na área econômica. A fundação de Brasília, como a nova capital do país, representou um plano ambicioso e ousado, gerando contundentes críticas pelo endividamento e pela transferência estratégica do foco do poder para a região central do país. Contudo, a obra majestosa de Oscar Niemeyer continua ostentando do alto do planalto novos conceitos e formas de beleza na arquitetura moderna.
Em Campos dos Goytacazes, o conjunto histórico arquitetônico formado pelo Liceu, pelo Fórum e pela Vila Maria, representando um passado de poder e riqueza, era um dos mais apreciados locais da cidade. Entre esses prédios, um jardim bucólico, sem grades, com coretos e bancos pitorescos, acolhia os namorados que passeavam sob a sombra das palmeiras imperiais.
Vivíamos uma época de romantismo nos bailes glamourosos do Automóvel Clube e do Saldanha da Gama, nas serenatas às janelas das moças enamoradas e nos hi-fi domingueiros das casas de famílias. Tudo embalado pelo sabor de cuba-libre e do piano de Anoeli tocando Imagine, de John Lenon, e Com açúcar e com afeto, de Chico Buarque.

A eleição de Jânio Quadros, em 1961, para a presidência da República, agitou o cotidiano da população, que se empolgava pelo seu carisma e confiava nas suas promessas de que varreria a corrupção do país.
Poucos meses depois, a renúncia de Jânio Quadros gerou uma crise política. Em Campos, os homens discutiam a situação política do país em pequenos grupos no centro, na chamada Rua dos Homens em Pé.
Assumiu o vice-presidente João Goulart, num clima de hostilidade e crescente desgaste do seu governo.
Na Rua dos Homens em Pé, a conversa nas rodinhas eram inflamadas.
Os adolescentes viviam em outro mundo. Depois de ser aprovado no Exame de Admissão para o Liceu, a segunda vitória era vestir o uniforme e entrar pela primeira vez no colégio que tinha padrão de excelência, só comparado ao Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro.
A Parada de Bichos era um evento criado por alunos de gerações passadas e que se repetia anualmente, quando os alunos veteranos aplicavam os mais inusitados trotes nos calouros. Funcionava como uma espécie de batismo. Depois de passar pelo calvário do trote, podia-se então ser considerado um liceísta. Pintados e sujos, os calouros desfilavam pelos quarteirões das redondezas do Liceu.
A formação que recebíamos no Liceu seria para o resto de nossas vidas um alicerce seguro. Quem há de esquecer daqueles professores e de suas aulas?  As de Português, do simpático Prof. Roberto Wilson Fernandes e da competente Prof. Ariema; as de Inglês, da elegante Prof. Leda Diniz; as de História, da brilhante Prof. Maria Rita e da rigorosa Prof. Marina; as de Ciência, da mãezona Prof. Evangelina Guedes; as de Matemática, da inteligente Prof. Isa Sodré e as de tantos outros ilustres mestres do Liceu daquele tempo inesquecível, quando não havia internet e nós saciávamos nossa sede de saber através dos livros e das enciclopédias.
Quando tocava a campainha do intervalo para o recreio, dirigíamos para o Jardim do Liceu e ali dávamos vazão às fantasias, iniciávamos os namoros e os flertes. Ao término das aulas, retornávamos para casa com a mente fervilhando de conhecimentos e o coração pulsando de paixão. Pegávamos o lotação e íamos todos juntos rindo e cantando as músicas das paradas de sucesso: Calhambeque, de Roberto Carlos, Toma um banho de lua, de Cely Campelo...


À tarde, muitos de nós, voltávamos para os ensaios do Coral Juca Chagas, sob a direção da notável maestrina Alcídia Perez Pia e do Conjunto de Percussão Dora Pinto, sob a direção da querida maestrina Evany Medina. 
O ensino do Liceu aliava o conhecimento teórico e a prática em laboratórios à aprendizagem através da arte e da cultura. No Coral de D. Alcídia e no Conjunto de Dona Evany, deixávamos aflorar a emoção. Através do mundo encantado da música e do folclore brasileiro, entramos em contacto com as fascinantes obras de Chiquinha Gonzaga, Villa-Lobos, Ary Barroso e outros. De posse de suas batutas, as professoras - maestras mais pareciam fadas regendo com varinhas de condão os nossos sonhos e fantasias. Elas abriram um horizonte ainda mais amplo em nossas vidas e os repertórios musicais, tantas vezes apresentados em ocasiões especiais, fazem parte até hoje de nossa memória afetivo-musical, onde ressoam: “Os negros trouxeram de longe...”

Em 1962, a seleção brasileira de futebol proporcionou ao Brasil a vitória da Copa do Mundo, fazendo com que milhões de corações explodissem de euforia com o bicampeonato. Uma carreata colorida de verde e amarelo percorreu as ruas de nossa cidade e os campistas saíram às ruas para externar, entre sons de buzina e de fogos, a alegria de ser brasileiro.
Em 1964, um golpe militar depôs o Presidente João Goulart e a partir de então se instalou no país um regime ditatorial que deixou profundas chagas na vida nacional durante duas décadas. Censura, prisões, tortura, repressão e exílio passaram a rondar como espectros no dia-a-dia dos cidadãos brasileiros.
Na nossa pacata Campos, os homens na Rua dos Homens em Pé silenciavam as suas opiniões acerca da política. As vozes emudeceram e as consciências anestesiadas pelo medo refugiaram-se na clandestinidade.        
Enquanto nos grandes centros urbanos do país os estudantes liderados pela UNE protestavam em comícios contra a ditadura, nós, os jovens liceístas de Campos apenas recebíamos notícias vagas e distantes daquela realidade através da imprensa amordaçada. A nossa agremiação estudantil _ a LAECE, não tinha ainda uma participação efetiva nas questões políticas.
Alheios aos acontecimentos políticos, sentíamo-nos seguros e protegidos contra turbulências externas no nosso Liceu sob a direção de Dr. João da Hora, sempre bonachão, em seu costumeiro terno branco, recebendo os alunos diariamente com um sorriso e uma palavra carinhosa. Tacinho, o coordenador de disciplina, mais zelava pelos alunos do que os disciplinava. Lívio Tavares cuidava da portaria e ali reinavam a liberdade e a paz. Com a morte do estimado diretor, assumiu a direção o Prof. Paes da Cunha que manteve o mesmo ambiente de harmonia e respeito entre todos. Sua gestão dinâmica trouxe para o colégio importantes melhoramentos, mas jamais o Liceu perdeu sua filosofia humanitária e libertária.
Nos desfiles de 7 de setembro, o Liceu era a escola mais esperada pela população que se aglomerava atrás do cordão de isolamento da Av. Alberto Torres. Nosso destaque não era apenas pela afinada banda marcial, nem pela cadência bem ensaiada da marcha dos alunos em uniforme de gala e nem pela galhardia dos pelotões da cavalaria, das bicicletas e das bandeiras. Nós nos destacávamos dentre todos porque marchávamos com orgulho de sermos liceístas.
No antigo Solar do Barão da Lagoa Dourada era possível sonhar naqueles tempos ainda que fossem anos de chumbo lá fora. Na segunda metade da década de sessenta, tomamos rumos diversos. Alguns alunos permaneceram cursando o Clássico ou o Científico, outros ingressaram no Curso Normal do Instituto de Educação. A separação dos colegas e do amado colégio foi cruel e irremediável. Seguimos nossas vidas em outras instituições, em cidades e estados diferentes, carregando em nosso íntimo a certeza de que nada seria como o Liceu.
Passados cinquenta anos, dispersos por esse país gigantesco, a geração de sessenta, sequiosa de um reencontro como este, traz ainda, e para sempre, na retina, lembranças dos seus doze, treze, quatorze e quinze anos de idade passados nas salas de aula, no salão nobre, no mirante, no pátio e nos corredores do antigo casarão transformado em templo do saber. Mas, sobretudo, os sessentões de hoje trazem em seus corações um sentimento único que não tem nome nos dicionários – o liceísmo. Este sentimento se revela nas estrelas que há nos olhos daqueles que foram ou são liceístas e no Hino ao Liceu, de autoria de Alcídia Perez Pia:
“Na planície goitacá
De tão grande tradição
Representa o Liceu
um padrão na educação
Liceístas, sempre avante
Pela glória do Liceu
Que evocamos com orgulho
Ó Liceu! Liceu! Liceu!
Grandes vultos o Liceu
Ao Brasil já pode dar
São exemplos a seguir
Para nossa terra honrar
Entoemos com amor
Nosso hino ao Liceu
Por aquilo que fará
Pelo muito que já deu”.

 

          Vera Lucia Magalhães de Araujo



sexta-feira, 18 de maio de 2012

Crônica da Vida Real


CUMPADRE ANTÔNIO

Agenor Portelli Teixeira Magalhães



     Certo dia ele apareceu na chácara oferecendo-se para capinar. Rosto chupado, pele clara amarelada e curtida de sol, barba sempre por fazer, cabelos negros e lisos, empastados de suor, calças enroladas nas canelas, cheias de remendo, pés descalços, mãos calosas e um bigode que ocupava todo o lábio superior, um sinal de dignidade. Idade incerta, pois não tinha registro de nascimento.
     Preço acertado, barato por sinal, prazo combinado e lá começou o serviço o Seu Antônio, conforme o chamávamos de início. Atencioso, pacato, respeitador, gostava de enrolar um papo e puxava conversa à toa. Bastava aparecer alguém disponível, descansava a enxada debaixo do sovaco e começava a contar alguns casos desinteressantes. Era um caipira e analfabeto por herança. Encerrado o papo, ele cuspia nas mãos calosas e reiniciava o serviço. Quando queria, pegava firme na ferramenta e a capina desandava. Vez por outra, quase sempre, estava lá Seu Antônio junto da moringa de barro à sombra da mangueira, mascando seu fumo de rolo ordinário e limando o corte da enxada que não acabava mais. Ficamos sabendo que tinha três filhos, todos pequenos e não dava nem 10 meses de diferença de idade entre eles. A mulher pegava firme no batente e dava conta como ela só da lavagem de roupa para fora. Estava de barriga cheia novamente e iria parir em mais 2 meses.
Os agrados do Seu Antônio foram cativando o meu pai e mais serviço foi aparecendo, a manutenção do pomar, novas plantas e alguns serviços de pedreiro que o velho ia lhe ensinando. Aos poucos ia aprendendo a usar uma ferramenta ou outra de mais precisão, como o serrote, o martelo, entre a escavação de uns buracos e os cortes de galhos de árvores.
Quando nasceu a criança, um menino, meu pai fez-lhe a primeira visita e constatou a miséria geral em que vivia Seu Antônio, a mulher e agora as 4 crianças. Nem era preciso dizer que papai ganhou um afilhado. Desse dia em diante, passaram a se chamar de cumpadre. Era cumpadre prá lá, cumpadre prá cá, tratamento que começou a irritar meus avós, moradores da chácara. O cumpadre acabou virando empregado permanente, com direito a salário. Fim de mês, meu pai dava sempre algo mais, para reforçar o rancho das crianças, quando não raro mandava mantimentos. Qual nada, o dinheiro extra não entrava na casa miserável, ia tudo na danada da cachaça do cumpadre. Papai então resolveu assumir Seu Antônio, fez umas adaptações num barraco de alvenaria que servira durante algum tempo de galinheiro e o levou para lá, com família e tudo, que era nada. Um fogão a lenha e uma instalação sanitária foram providenciados. De amigo e caseiro acabou entrando para a família. E o cumpadre levou junto o seu hábito arraigado de jogar todo o minguado dinheiro na malvada cachaça do seu Monteiro.
As crianças viviam barrigudinhas, com o verme no corpo, misturadas que andavam com cães vira-latas e as galinhas caipiras que ciscavam o terreno em volta do barracão.
Certo dia, papai achou que era hora de consertar a vida do cumpadre. Para curá-lo do alcoolismo nada melhor do que apresentá-lo a Jesus Cristo.  E levou-o a freqüentar a igreja Adventista. O cumpadre deixou de trabalhar aos sábados, o que fez com grande satisfação, coisa que também já não fazia aos domingos, com todo o direito.
Todos os sábados pela manhã e aos domingos e quartas-feiras à noite o cumpadre freqüentava os cultos, curtindo o terno engole ele paletó, que meu pai lhe dera de segunda mão. Meu pai apresentava-o aos irmãos da congregação, ressaltando o notável feito da conversão do cumpadre em Jesus como seu Salvador. Foi uma festa quando o cumpadre e a Maria passaram pelo tanque batismal. Os tempos de bebida já se iam e uma nova vida estava à espera do cumpadre. Seu aspecto exterior realmente era outro, a gravata veio aumentar-lhe a dignidade do bigode, embora ele mesmo não soubesse disso. A Bíblia debaixo do braço o tornava respeitado e importante. Não importava que fosse analfabeto e que usasse a Bíblia de cabeça para baixo, importante era o símbolo do crente estampado em seu rosto.
Essa convivência muito próxima e íntima começou a revelar os defeitos mais acentuados do cumpadre. Meu avô começou a embirrar com ele e sempre tinha coisas a censurar. Saltava a olhos vistos o ciúme que ele tinha da atenção que meu pai devotava ao cumpadre e a sua mais nova família. Afinal, não passava de um mero empregado, criticava o meu avô.
Malandro, o cumpadre puxava o saco quanto mais podia de papai, que o via a cada dia que passava como um injustiçado e alvo das implicâncias e rabugices do meu avô. Vai daí que vovô começou a notar que estavam sumindo ferramentas da chácara. Nisso, vovô era um especialista, ele sabia cada ferramenta que existia e onde ficava guardada, não fosse ele o responsável por zelar pelas mesmas. Azar do cumpadre. Deduzira que seu Antônio, - negava-se a chamá-lo de cumpadre como todos os demais-, estava vendendo as ferramentas para comprar cachaça. Uma indignidade que vovô estava fazendo, reclamava papai. Uma injúria imperdoável, o cumpadre um novo homem em Jesus seria incapaz de cometer tais pecados: furtar para tomar cachaça.
Um dia a corda arrebentou. E do lado mais fraco, é óbvio. Meu pai chamou o cumpadre para um colóquio muito constrangedor e disse que lamentava muito, mas o seu Lucrécio estava velho e ele como filho não queria dar nenhum desgosto e estava impossível eles continuarem vivendo quase que no mesmo teto. Abraçaram-se e a emoção se revelou nas pequenas lágrimas que brotaram nos olhos de ambos e que procuravam esconder um do outro. Ia sem mágoa do seu Bocrécio (era assim que o cumpadre conseguia soletrar o nome do meu avô). O cumpadre mudou-se com armas e bagagens, literalmente, pois meu pai deu de presente para selar a amizade eterna uma espingarda de cano simples, calibre 28.  Alojou-se em um casebre, lá do outro lado do canavial; mudou-se de emprego, se é que arranjou algum.
Passaram-se os dias e papai vivia acabrunhado com a ausência e a falta de notícias do cumpadre. Na igreja nunca mais apareceu. Até que certo dia a Maria apareceu com a notícia: o cumpadre amanhecera duro como uma pedra. Disse isso sem nenhuma emoção, porque emoção era o que menos se pode esperar após uma existência ordinária. Em seguida ao choque o meu pai correu para lá. Encontrou as crianças brincando em volta do casebre, indiferentes e ignorantes do drama que se passava sob aquele teto tosco, coberto de sapé. Sobre a cama improvisada com tábuas velhas e carcomidas, apoiadas em tijolos, a figura esquelética do cumpadre jazia de lado, encolhida em posição fetal, talvez a última tentativa de apagar sua triste trajetória na vida.  Jamais saberemos o que ele achava da vida, o que representava a família, pois nunca pudemos perceber nele qualquer tipo de ambição. Coitado do Cumpadre! Cheio de cana e subnutrido não conseguiu suportar o frio. Os parcos farrapos mal davam para cobrir os filhos pequenos. Chamado o rabecão, uma dificuldade se apresentou: como trazer o corpo lá do meio do canavial, se o acesso era uma pequena trilha por onde só se passava a pé. Era muito distante para transportar o defunto no caixão quando faltavam braços para vencer a longa distância. Meu pai foi então ao seu Monteiro e expôs-lhe a situação. O seu Monteiro colocou à disposição o entregador de pão com sua bicicleta de bagageiro frontal. E foi dentro do bagageiro da bicicleta que aportou no Capão, saído do canavial, o corpo do Cumpadre, sentado e amarrado como se vivo estivesse, pronto para cumprir o ritual dos mortos.
Lembro-me que durante muito tempo papai viveu macambúzio, amargurado e remoendo-se com o sentimento de culpa pela morte desgraçada do Cumpadre. Quanto à Maria e suas crianças nunca mais ouvimos falar.

O Professor Sérgio Diniz e a Universidade Candido Mendes



Leciono, há treze anos, na Universidade Candido Mendes. Tenho o maior carinho, admiração e respeito por essa instituição, pelo ambiente de alto nível que se mantém ali, em todos os setores de seu funcionamento.
Durante esse período, passei por muitas experiências marcantes e até dolorosas, na minha vida particular. Mas a Candido Mendes sempre esteve presente e me servindo de apoio, assim como também procuro dedicar a ela o melhor de mim, em termos profissionais.
Tive meus primeiros contatos, diretos e pessoais, com o Professor Sérgio Diniz, dentro desta instituição. Antes, só ouvia falar nesse professor, nesse homem e nesse político, como qualquer pessoa da nossa cidade, já que foi um homem público e, portanto, conhecido de muitos.
Quero dizer que, desde a primeira vez que nos deparamos, tivemos uma relação de admiração, por sua simpatia, educação e simplicidade. Coisa de um sábio, como ele sempre foi. À medida que o tempo foi solidificando essa nossa amizade, minha admiração foi crescendo, porque fui tendo oportunidade de perceber o quanto ele era generoso, humano, bem-intencionado e muito honesto.
Destacava-se das demais pessoas, exatamente por ter essas características peculiares, em todas as etapas de sua vida. Foi um excelente aluno, na Universidade Candido Mendes, no Rio de Janeiro, notabilizando-se tanto que passou a ter um contato direto e gozar de prestígio, junto a Sua Magnificência, o Reitor Candido Mendes.
Sempre foi um homem de vanguarda, pois podemos dizer que foi um precursor, ao levantar argumentos e defender a ideia de descentralização, junto do Reitor da Candido Mendes, lutando por sua interiorização, especificamente no Município de Campos, já que se constitui no maior município do Estado do Rio, em extensão territorial. A ele devemos, portanto, a vinda dos primeiros cursos superiores de Administração, Ciências Contábeis e Economia, em 1976, na nossa cidade.
Inovou na Política, ao tentar acompanhá-la, naquilo que as urgentes questões materiais se impõem, ligadas ao Bem Comum e, ao mesmo tempo, experimentar uma vida pessoal, de modo íntegro, cristão e dignificante. Prova disso foi o modelo de esposo e de pai que sempre testemunhou.
Imprimiu em seus filhos, assim como nos seus alunos e seus colegas, sua singular marca, de um profissional sério. Quero reforçar, aqui, aquilo que já lhe disse, com relação ao seu filho Rafael, também fruto de nossa formação, já que foi nosso aluno. Considero-o um jovem responsável, educado, simpático, solícito e carismático, como o pai, portanto, capaz de levar adiante o projeto político que a vida não lhe oportunizou, se assim ele se propuser. Seria uma forma de perpetuar seu ideal, através deste filho, no meu modo de ver e torcer.
O próprio ambiente institucional se empobrecerá sem a sua presença, ímpar, queridíssima por todos, desde o funcionário mais humilde, passando pelos funcionários, professores, coordenadores, até o diretor desta casa. Estamos órfãos do seu sorriso, do seu carinho, do seu jeitinho simples de nos abraçar e nos fazer sentir amados.
Sua saída, percebida por todos nós, quando a Candido Mendes, chocada e sofrida com a sua partida, abriu suas portas para a cerimônia fúnebre, que antecedeu ao seu sepultamento, aponta para a humanização, ainda maior entre seus membros, diante dessa vida tão compartimentalizada em que vivemos. O choque de sua morte nos abateu de tal forma que fez essa instituição parar de funcionar, por algum tempo, com a certeza de que vai modificar sua forma de seguir adiante.
Diante dessa realidade inexorável, deixamos de ver os professores trocando seus saberes cognitivos, os funcionários cumprindo seus respectivos papéis, para vermos, unidos numa tristeza que irmanou a todos nós, uma humanização nunca presenciada entre seus colegas. Foi muito bom essa despedida do nosso querido e admirado amigo ser nesta instituição. Com certeza, ele ainda tinha mais essa lição para nos dar, aqui dentro.
Deixou, portanto, um legado invejável pra todos nós e para outras gerações, que por esta instituição passarão. Por tudo isso, quero, em meu nome e em nome de todos os seus colegas, reverenciar e agradecer a Deus pelo privilégio de termos tido o professor Sérgio Diniz entre nós.
Parabéns, pelo exemplo que deu com sua vida, pelo que fez por nossa instituição e nossos agradecimentos à sua linda família, pela compreensão, pelo tempo de seu afastamento, enquanto estava conosco.

                                    Talita Tavares Batista Amaral de Souza
                                      - Professora da UCAM/Campos -