quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Vinicultura e Viticultura




Texto escrito por Luiz Magalhães

A viticultura é o cultivo da videira, dependendo de uma série de fatores genéticos, geoclimáticos e fitossanitários. Já a vinicultura é a ciência da transformação da uva em vinho. Houve tempo em que as uvas eram esmagadas em "lagar" com os pés de moças virgens e bonitas, sendo que esse ritual ainda é preservado em muitos países, inclusive, no sul do Brasil.
Atualmente, o esmagamento é feito mecanicamente por prensagem ou centrifugação. Poucos países estão usando a maceração carbônica em atmosfera de gás carbônico, onde ocorre a fermentação intracelular responsável pelo sabor intenso superfrutados. Esse processo ainda é limitado, pois implica em mudar todo o parque industrial.
Com relação à morte do vinho, ela é real. Com o tempo, ele vira água ou "petróleo". Para ser enólogo é necessário curso superior. No Brasil, temos na Universidade de Santa Maria – RS, cujo curso dura quatro anos. As mulheres são melhores degustadoras que os homens, pois possuem olfato e paladar apurados. Nossa amiga Arlete Sendra entende bastante do assunto, pois ela é vitalista, ao contrário de alguns amigos que são animistas.
Há vinhos machos e fêmeas. Minha experiência com amigas, algumas do Liceu, constatei que elas preferem vinhos machos como o Cabernet Sauvignon. Esse vinho aflora a sua força vital ao sentir a presença da mulher, ficando todo alvoroçado. É bom seguir nessa arte o poeta persa Omar Khayyam: "A tulipa não vês que, na hora matinal absorve da atmosfera o vinho celestial? Faze com crença o mesmo, até que um dia te inverta para o chão, feito ânfora vazia"... Um pedaço de pão sobre a relva ensombrada. Um livro de poesia, a urna de vinho e a amada. No deserto a cantar, sonora, a meu lado... Muda-se a solidão num Éden encantado..."

                                                

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Eça de Queiroz no Divã do Freud?





Texto escrito por Reinaldo Paes Barreto, Jornal do Brasil, Online, RIO DE JANEIRO Colaboração de Eusébio Galvão Queirós.

 Se Eça de Queiroz fosse vivo hoje o que teria mudado nos seus romances e na sua vida pessoal? Tentemos uma aproximação. Eça nasceu num vilarejo de pescadores de sardinha e carapau (um peixe briguento, que puxa a vara para os lados), a Póvoa do Varzim, na remota lua em sagitário de 25 de novembro de 1845.
Um menino que deveria ter crescido como tantos do seu geotempo, provinciano e sonhador. No entanto, o magistrado José Maria de Almeida Teixeira de Queirós, seu pai, registrou-o no distrito vizinho, Vila do Conde, como seu filho, mas de mãe ignota. Que na verdade, era uma órfã, Carolina Augusta Pereira de Eça.

Ou seja, infância sofrida, humilhações, perguntas sem respostas. Pode-se imaginar o que foi para Eça ser sabido como filho ilegítimo por uma sociedade intolerante, agrária e carola do interior de Portugal na primeira metade do século 19. Resultado: toda a sua densa produção literária sinaliza a necessidade de realizar a catarse dessa infância infeliz.
De que forma? Primeiro, pelo silêncio sobre esses seus primeiros anos; segundo, pela constância com que dá endereço a todas as famílias de seus personagens e, terceiro, desenvolvendo uma misoginia que transferiu para todas as suas criações femininas uma acentuada deformação de caráter. O que variava era o grau e a forma da transgressão: adultério, adultério com incesto, chantagem, rancor da humanidade, submissão total à Igreja, por aí.

Primeira premissa (silêncio sobre a infância). Eça só começa a falar de si a partir de Coimbra. Ali se forja o futuro escritor realista com tensões de sociólogo que, caso escrevesse em francês, estaria à altura de Zola e Balzac, ou de Dickens, em inglês mas que teve que burilar a última flor do Lácio para poder exprimir toda a dor e a revolta de ver o Portugal que podia ter sido e não foi, se é permitido clonar Bandeira.

Segunda premissa: a necessidade de superar essa ausência de uma organização familiar com nome e endereço, que lhe foi negada no berço, materializou-se quem sabe? Na sua obsessão de situar fisicamente os seus personagens em residências senhoriais, sede de uma dinastia ou estirpe que se distingue das demais pelo aspecto, pelo entorno e pela capacidade de produzir, metaforicamente, sombra e luz.
Veja-se a descrição do Ramalhete, solar de Os Maias, a sua obra-prima:
.. sombrio casarão de paredes severas, com um renque de estreitas janelas de ferro no primeiro andar e o aspecto tristonho de residência eclesiástica que competia a uma edificação dos tempos da Sra. D. Maria I; com uma sineta e com uma cruz no topo, assemelhar-se-ia a um colégio de jesuítas. No entanto, as suas paredes foram fatais àquela antiga família da Beira, tão rica e tão infeliz... .

Os exemplos se multiplicam e se alteram conforme o destino de seus moradores: são diferentes vidas as vidas dentro da Ilustre Casa de Ramires , do 202 dos Champs-Élysées e de Tormes , por exemplo para ficarmos apenas nas residências-personagens que compõem a estrutura de tijolo e telha que sustenta a base de ficção a partir da qual se desenrola o enredo dos seus romances.

A terceira premissa se expressa, nitidamente, por aquilo que escreveu Camilo Castelo Branco: não há em seus romances uma única mulher honesta!  Nem nos dele, diria um eceano. Mas é fato que enquanto o autor de Amor de perdição mostrava-se compreensivo e solidário com o pecado feminino, porque entendia que a sociedade de seu país e de seu tempo privava a mulher de liberdade para se desenvolver e caminhar o seu caminho a partir da razão, permitindo-lhe apenas o uso da emoção, Eça as colocava num Parnaso às avessas. E de lá elas só desciam pelas tranças de Julieta ou pela escada que vai dar na alcova.
As três figuras centrais do seu arquétipo feminino, por exemplo, são Amélia (O crime do padre Amaro), Luísa (O primo Basílio) na categoria burguesinhas românticas, do interior
ou da capital , entediadas, que se casaram um pouco no ar e cujas vidas não tinham foco. Ambas, Amélia e Luísa, foram elaboradas como figuras portadoras de culpa e foram castigadas com a morte pois precisavam se libertar do estigma do adultério. Já Maria Eduarda, a mais chocante e mais inocente das três pecadoras, foi punida com menos rigor. Sendo isenta de culpa no incesto, não morre como as outras, mas parte para uma vida desconhecida toda vestida de negro, numa metáfora clara de que sua vida será como um luto eterno. No romance (Os Maias) ela ocupa a primeira fila do pecado; mas deixa espaço para a Maria Monfort e a condessa de Gouvarinho, lobas menores.

Finalizemos pelo começo: se Eça de Queiroz fosse vivo hoje o que teria mudado nos seus romances e na sua vida pessoal?

Nos arriscamos a duas certezas , pelo menos. Primeira, teria feito psicanálise muito tempo e resolvido o seu problema com as mulheres. Como seria o comportamento das Ameliazinhas, Luísas, Marias Eduardas, Titi etc, só Deus é capaz de dizer. Segunda: teria aderido incondicionalmente ao computador. Por quê? Ora, um obsessivo da linguagem, um escritor que revia de pé e fumando pelo menos 25 vezes cada parágrafo de seus textos, quando descobrisse no Word o autocorretor iria à loucura... E de quebra, teria dois celulares para conversar com os amigos...

Reinaldo Paes Barreto é colunista mensal de vinhos da revista 'Domingo' e colaborador literário do Jornal do Brasil.

sábado, 20 de outubro de 2012

Carta Aberta aos Brasileiros, escrita pela filha de José Genoino, seguida de duas respostas




 A coragem é o que dá sentido à liberdade 

Com essa frase, meu pai, José Genoino Neto, cearense, brasileiro, casado, pai de três filhos, avô de dois netos, explicou-me como estava se sentindo em relação à condenação que hoje, dia 9 de outubro, foi confirmada. Uma frase saída do livro que está lendo atualmente e que me levou por um caminho enorme de recordações e de perguntas que realmente não têm resposta.
Lembro-me que quando comecei a ser consciente daquilo que meus pais tinham feito e especialmente sofrido, ao enfrentar a ditadura militar, vinha-me uma pergunta à minha mente: será que se eu vivesse algo assim teria essa mesma coragem de colocar a luta política acima do conforto e do bem estar individual? Teria coragem de enfrentar dor e injustiça em nome da democracia?
 Eu não tenho essa resposta, mas relembrar essas perguntas me fez pensar em muitas outras que talvez, em meio a toda essa balbúrdia, merecem ser consideradas...
Você seria perseverante o suficiente para andar todos os dias 14 km pelo sertão do Ceará para poder freqüentar uma escola? Teria a coragem suficiente de escrever aos seus pais uma carta de despedida e partir para a selva amazônica buscando construir uma forma de resistência a um regime militar? Conseguiria agüentar torturas freqüentes e constantes, como pau de arara, queimaduras, choques e afogamentos sem perder a cabeça e partir para a delação? Encontraria forças para presenciar sua futura companheira de vida e de amor ser torturada na sua frente? E seria perseverante o suficiente ao esperar 5 anos dentro de uma prisão até que o regime político de seu país lhe desse a liberdade?
E sigo...
Você seria corajoso o suficiente para enfrentar eleições nacionais sem nenhuma condição financeira? E não se envergonharia de sacrificar as escassas economias familiares para poder adquirir um terno e assim ser possível exercer seu mandato de deputado federal? E teria coragem de ao longo de 20 anos na câmara dos deputados defender os homossexuais, o aborto e os menos favorecidos? E quando todos estivessem desejando estar ao seu lado, e sua posição fosse de destaque, teria a decência e a honra de nunca aceitar nada que não fosse o respeito e o diálogo aberto?
Meu pai teve coragem de fazer tudo isso e muito mais. São mais de 40 anos dedicados à luta política. Nunca, jamais para benefício pessoal. Hoje e sempre, empenhado em defender aquilo que acredita e que eu ouvi de sua boca pela primeira vez aos 8 anos de idade quando reclamava de sua ausência: a única coisa que quero, Mimi, é melhorar a vida das pessoas...
Este seu desejo, que tanto me fez e me faz sentir um enorme orgulho de ser filha de quem sou, não foi o suficiente para que meu pai pudesse ter sua trajetória defendida. Não foi o suficiente para que ganhasse o respeito dos meios de comunicação de nosso Brasil, meios esses que deveriam ser olhados através de outras tantas perguntas...
Você teria coragem de assumir como profissão a manipulação de informações e a especulação? Sentir-se-ia feliz, praticamente em êxtase, em poder noticiar a tragédia de um político honrado? Acharia uma excelente idéia congregar 200 pessoas na porta de uma casa familiar em nome de causar um pânico na televisão? Teria coragem de mandar um fotógrafo às portas de um hospital no dia de um político realizar um procedimento cardíaco? Dedicaria suas energias a colocar-se em dia de eleição a falar, com a boca colada na orelha de uma pessoa, sobre o medo a uma prisão que essa mesma pessoa já vivenciou nos piores anos do Brasil?
Pois os meios de comunicação desse nosso país sim tiveram coragem de fazer isso tudo e muito mais.
Hoje, nesse dia tão triste, pode parecer que ganharam, que seus objetivos foram alcançados. Mas ao encontrar-me com meu pai e sua disposição para lutar e se defender, vejo que apenas deram forças para que esse genuíno homem possa continuar sua história de garra, HONESTIDADE e defesa daquilo que sempre acreditou.
Nossa família entra agora em um período de incertezas. Não sabemos o que virá e para que seja possível agüentar o que vem pela frente pedimos encarecidamente o seu apoio. Seja divulgando esse e/ou outros textos que existem em apoio ao meu pai, seja ajudando no cuidado a duas crianças de 4 e 5 anos que idolatram o avô e que talvez tenham que ficar sem sua presença, seja simplesmente mandando uma palavra de carinho. Nesse momento qualquer atitude, qualquer pequeno gesto nos ajuda, nos fortalece e nos alimenta para ajudar meu pai.
Ele lutará até o fim pela defesa de sua inocência. Não ficará de braços cruzados aceitando aquilo que a mídia e alguns setores da política brasileira querem que todos acreditem e, marca de sua trajetória, está muito bem e muito firme neste propósito, o de defesa de sua INOCÊNCIA e de sua HONESTIDADE. Vocês que aqui nos lêem sabem de nossa vida, de nossos princípios e de nossos valores. E sabem que, agora, em um dos momentos mais difíceis de nossa vida, reconhecemos aqui humildemente a ajuda que precisamos de todos, para que possamos seguir em frente.
Com toda minha gratidão, amor e carinho,
                    Miruna Genoino    
         
Resposta de Uma Brasileira a Miruna Genuíno

Embora solidária com seu sofrimento, como uma das cidadãs a quem sua carta é dirigida, não posso me furtar a respondê-la com muita franqueza.
Estranho seria se você, que teve um pai amoroso e que vê esse pai ser um avô dedicado e apaixonado por seus netos, não o defendesse.
Mas pare e pense: você acredita mesmo que nossa Imprensa odeia o governo Lula apenas porque esse cidadão era um operário? Você realmente acha que todos os membros da Imprensa nacional são aristocratas que odeiam a plebe? Será que você não se lembra da força e da torcida da maior parte da Imprensa pela anistia e do prazer com que ela relatou a volta dos exilados?
É à Imprensa, aos seus jornalistas e repórteres, que devemos, em grande parte, a maior parte, aliás, a queda da Ditadura. Se nossos jornalistas não encampassem a luta contra os militares, nós ainda estaríamos sob seu jugo.
Ainda há alucinados que gritam Selva! Mas veja você que a grande Imprensa não lhes dá guarida.
Seu pai cometeu um grave erro: seguir cegamente uma ideologia e acreditar que o PT seria o partido certo para implantar essa ideologia. E não perceber que estava seguindo dois homens que tinham um interesse apenas: o poder pessoal. A qualquer preço.
Você já se perguntou para que eles queriam esse poder? Convive com eles? São homens probos tal qual seu pai? Vivem vida simples e regrada como seu pai e sua família? Eles se dispuseram a inocentar seu pai, confessando, em juízo, que ele foi vítima de um esquema tenebroso?
Não lhe passa pela cabeça que seu pai foi muito ingênuo?
Sinto muito pelo seu sofrimento. Mas penso que sua carta deveria ser destinada ao Lula e a ao José Dirceu.
           Atenciosamente,
Maria Helena Rubinato Rodrigues de Sousa




OUTRA RESPOSTA PARA A CARTINHA ABERTA DA FILHA DE GENOÍNO.


 Bom, como a carta aberta da filha de Genoíno é endereçada A TODOS OS BRASILEIROS, e eu, como carioca da gema, filho agradecido de nordestino cabra da peste e de uma mineirinha de 1.57cm, enfezada feito uma capeta menstruada, tenho, por óbvio, o direito de responder.
Querida Miruna, me solidarizo, sinceramente, com sua dor. Um filho ou filha, agradecidos ao pai que lhes trouxe ao mundo, funciona como um advogado, quando da defesa de um réu.
Lamentavelmente, o fato de ser avô, ter dois filhos e 3 netos, por si só, não garante que um cidadão que se enquadre nesta condição seja elevado à condição acima de quaisquer suspeitas.
Fernandinho Beira Mar é pai. Tem 4 filhos (reconhecidos) e também é avô de dois netos e isso, convenhamos, não serve de passaporte para a impunidade.
Infelizmente Você teve a CONSCIÊNCIA do que seu pai fez durante o REGIME MILITAR. Eu, ao contrário de você, vivi todos os piores momentos daquela época.
Não estranhe o fato: MAS MUITOS BRASILEIROS COLOCARAM SUAS VIDAS EM RISCO, ACIMA DO CONFORTO E DO BEM ESTAR INDIVIDUAL, para resgatar nossa democracia. Eu estava nesse meio, como outros milhares de brasileiros. E comecei a fazer isso, com apenas 16 anos de idade.
Seu pai, ao contrário do que afirmas, causou mais dor do que tenha sentido. Basta que você leia sobre a guerrilha do Araguaia, motivo de orgulho de seu pai, para saber o que realmente ali se passou. Os justiçamentos, os seqüestros, os assaltos, tudo registrado nos arquivos com ambas as visões: a fantasiosa e a verdadeira. A de bandidos que queriam se transformar em heróis e heróis que foram transformados em bandidos pelos filósofos a soldo do petralhismo, por jornalistas engajados e historiadores que fraudaram a história.
Você, com acerto, diz não ter as respostas para as perguntas que se faz, ao contrário dos que vivenciaram cada frame negro daquele filme. Hoje, quem viveu aquele momento, sabe as respostas de todas as perguntas, e sabem que faltam perguntas para tantas respostas.
Por exemplo:
Que “forma de resistência” é essa que falas? Os justiçamentos ocorridos no Araguaia pela SIMPLES DESCONFIANÇA DE QUE UM COMPANHEIRO ESTAVA TRAINDO O GRUPO? O assassinato a marteladas de um jovem tenente que acreditou nas promessas dos guerrilheiros e resolveu se entregar? Uma bomba deixada no aeroporto de Guararapes que deixou 17 vítimas e dois inocentes mortos? Ou a que matou um jovem soldado de apenas 19 anos de idade?
São mais de 40 anos de vida política, diz você. Excetuando-se todas as falsas glorificações dos heróis bandidos, o que sobra de vida de seu pai, se é que cometeu algo de louvável, restou findo no dia de hoje e de forma DEMOCRÁTICA, LEGAL, SEGUNDO O ORDENAMENTO JURÍDICO DE NOSSA NAÇÃO e ONDE LHE FOI DADO TODO O DIREITO À AMPLA DEFESA que, diga-se, centrou na mais cínica mentira que seu próprio texto, nas entrelinhas, conclui.
E aí, Miruna, chegou a hora de você apresentar respostas para as perguntas sobre as respostas que temos:
1) Sendo seu pai tudo o que você descreve com esse belo amor de filha, como pode eLLe não saber de nada do que era feito bem debaixo de seu nariz?

2) Sendo esse HOMEM PRESUMIDAMENTE, POR VOCÊ, CORAJOSO COMO SEMPRE FOI, segundo diz você, POR QUE ELLE NÃO DISSE NÃO AO QUE OUTROS FAZIAM E AINDA COLOCANDO SUA ASSINATURA PESSOAL EM EMPRÉSTIMOS FRAUDULENTOS?

3) SENDO ESSE HOMEM TÃO COMBATIVO QUE SEU AMOR FRATERNO DESCREVE, POR QUE ELLE NÃO IMPEDIU QUE SE COMETESSE UM CRIME NOJENTO, BEM DEBAIXO DO SEU NARIZ, QUE PODERIA CHEGAR AO QUE CHEGAMOS HOJE?

4) SE ELLE LHE DISSE, AOS 8 ANOS: “MIMI, QUERO MELHORAR A VIDA DAS PESSOAS”, então por que permitiu que uma quadrilha roubasse a grana de milhões de brasileiros que trabalham diuturnamente para pagar impostos escorchantes que foram roubados em nome de uma causa?

5) Suponhamos, Mimi, que seu pai soubesse de tudo o que aconteceu nesse episódio tenebroso que atentou contra a nossa democracia, pergunto: Então, por que não saiu do partido? Por que comemorou várias vezes com muitos integrantes do bando as “vitórias” do governo, compradas com dinheiro sujo?

6) E a pergunta final Mimi: POR QUE, TENDO TODAS AS CHANCES DE SE DEFENDER, NÃO O FEZ DE FORMA CABAL, ONDE NÃO RESTASSEM DÚVIDAS SOBRE SUA ATUAÇÃO? POR QUE MENTIU TANTO? POR QUE, CORAJOSO, NÃO OPTOU PELA VERDADE?

Ah, Mimi, não recrimine “os meios de comunicação” desta nossa nação. Muitos jornalistas se esmeram em produzir e divulgar as farsas aprontadas por LuLLa e sua quadrilha. Mas ela, Mimi, ainda é livre. Na Argentina, cujo governo da doida que seu pai defende, a imprensa está sendo cassada. Em Cuba ela só existe para falar bem do governo assassino que seu pai defende. Na Venezuela, as versões que prevalecem, são as oficiais. As poucas que falam a verdade, ou foram “estatizadas” ou “foram eliminadas”. Todos estes exemplos de democracia, são defendidos pelo seu querido pai.
Seu pai terá, como preza nossa democracia, o pleno direito de espernear o quanto quiser. Faz parte.
Da mesma forma, temos o direito de torcer para que a pena que lhe seja imposta seja suficientemente grande, para que não retorne como falso herói novamente.
Se pai Miruna, com toda a razão e compreensão que nos cabe ter neste momento difícil que vives, pode ser o HERÓI que sua visão enxerga. É o seu papel de filha e lhe admiro por isso.
Mas para nós brasileiros, que cansamos de impunidade, que cansamos das mentiras contadas por LuLLa e amplamente defendidas por seu pai, que cansamos do cinismo com que fomos tratados, que quase desistimos de lutar por esta nação, ao constatarmos todos os dias que os bandidos de sempre impunham à milhões de brasileiros uma pauta sobre a qual não nos cabia o direito de defesa, seu pai não passa de um bandido covarde que ajudou a roubar o dinheiro que poderia construir escolas, creches, hospitais, comprar medicamentos para quem não tem como pagar, dar casas para quem não tem onde morar e realmente, como eLLe lhe disse aos 8 anos: “que a única coisa que queria, era melhorar a vida das pessoas”.
Sinto muito Miruna pela sua dor e pelo momento difícil que estás passando.
Mas não nos tire o direito de sentir uma alegria esfuziante por ver resgatada a justiça que parecia nos ter abandonado. Não nos tire a alegria de poder constatar que um Brasil mais justo e mais honesto, mais verdadeiro e menos cheio de farsantes e mentirosos esteja, finalmente, renascendo.
Lamento te dizer Miruna, mas a sua dor é do tamanho exato da alegria das pessoas decentes. Do simples carteiro que encontra uma mala de dinheiro e devolve, ao invés de escondê-la nas cuecas, como fez seu tio, das pessoas que trabalham incansavelmente para dar um futuro melhor para seus filhos, sem praticar qualquer tipo de crime. Do policial que prende quem tenta lhe subornar. Do juiz que julga de forma imparcial um réu, seja ele quem for. Do político que honra os votos que recebeu.
A sua tristeza, Miruna, é a compreensível tristeza de filha.
A minha alegria, ao ver seu pai preso, pagando pelos crimes que cometeu, é a de um brasileiro que quer deixar para os netos, um país LIMPO – JUSTO – HONESTO e COM PLENO EXERCÍCIO DA MAIS LIVRE E RESPONSÁVEL DEMOCRACIA.

Por fim Miruna, não "É A CORAGEM QUE DÁ SENTIDO À LIBERDADE", como você disse nas primeiras linhas de sua cartinha, mas o medo de perdê-la. A CORAGEM, querida e competente filha, só é necessária para se defender a verdade como norte, quando todos defendem a mentira como método.
Manuel Santos