sábado, 29 de setembro de 2012

Reflexões, diante da morte de Camila





Neste momento, tão sofrido para todos nós, diante do passamento de nossa querida Camila, junto de sua filhinha Valentina, gostaria de aproveitar essa oportunidade, para dar meu testemunho e desenvolver algumas reflexões que esta experiência pode nos proporcionar.
Camila viveu e morreu como um bom exemplo de santidade, vivida em nossos tempos. Foi precoce desde sempre. Menina linda, em todos os sentidos que a gente possa classificar. Boa filha, conseguiu cultivar em seus pais um amor intenso, capaz de despertar em José Maurício e Bianca os mais altos sonhos, merecidos para uma família tão linda como a que formavam. Teve, portanto, “berço” familiar, bem alicerçado, naquilo que aprendemos ser ligados aos princípios cristãos, de amor ao próximo e calor humano.
Descobriu o amor muito cedo e se apaixonou, perdidamente, por Rodrigo , seu primeiro, grande e verdadeiro amor. Viveu, portanto, um lindo e desinteressado amor, capaz de superar qualquer limite. Um amor abençoado por Deus, e fortalecido por ELE, diante da presença de Ana Luíza (sua primeira filhinha, falecida ao nascer), diante da Vitória (esse anjinho que ela deixou para nós) e diante mesmo da Valentina (filha que foi com ela, pro céu).
Curta vida a de Camila, mas tão rica de exemplos lindos, intensos e verdadeiros! Só viveu o amor - prova disso é aquele sorriso aberto e a doçura de sua presença, em qualquer situação que estivesse. E sua linda e triste morte? Camila morreu, com certeza, em estado de graça. Muito bem lembrado pelo Pe. Murialdo, deu sua vida para dar a vida. Isso, em tempos de tanta violência, é singular e motivo de muito orgulho e felicidade para sua família e amigos! Soube testemunhar os ensinamentos de Cristo, já que fez essa aprendizagem desde a casa de sua avó Maria Alice.
Para uma breve reflexão, quero, diante da dor e comoção provocadas pelo momento, evocar o livro de Sabedoria 1, versículo 13-15:

“Deus não é o autor da morte, nem tem prazer em destruir os viventes. Tudo criou para a existência. São salutares as criaturas do mundo. Nelas nenhum princípio é funesto, e a morte não é a rainha da terra, porque a justiça é imortal”.

Bom lembrar que felicidade nem sempre está junta da alegria, já que a alegria evolui a partir de motivos externos. Felicidade é intrínseca e mais profunda. É possível ser feliz mesmo quando não estamos alegres. Em muitos momentos árduos de nossas vidas, podemos permanecer felizes por termos a certeza de que estamos nos lugares certos, fazendo a coisa certa, dentro do contexto das nossas escolhas. Podemos encontrar conforto, ainda que a vida esteja pesada, porque sabemos que estamos onde verdadeiramente deveríamos estar. Importa reconhecer que, mesmo na ausência de alegrias, a felicidade permanece motivando a luta, mesmo que tenhamos dificuldade em compreender as coisas da vida, entre elas uma morte, como a de Camila e a de Valentina, tão jovens e com tantos planos.
Lembra-nos o Pe. Fábio de Melo, no seu livro “Tempo de Esperas”, que o mais importante na construção de nossas vidas é o empenho na sua construção, não o resultado do que obtivemos. Nem sempre o produto final é o mais importante, na vida. O resultado do que fizemos pode ser pequeno, diante das oportunidades que o processo nos entrega. Mas essas oportunidades da vida estão cheias de encantamentos, para quem sabe ver e ouvir, interpretando-as como um presente de Deus. O empenho esconde a riqueza do processo da descoberta, que esconde o encantamento de muitas oportunidades. O caminho é belo e há matizes interessantes a serem observados.
A simplicidade da vida da natureza pode aprimorar o aprendizado para nossas vidas. Em uma linguagem metafórica, Pe. Fábio de Melo nos lembra que a morte do rio no mar sugere uma transformação.

“Ao dizer que o destino de todo rio é morrer no mar, isso nos sugere que haverá uma transformação. O que temos é a possibilidade de continuidade. O rio, ao morrer no mar, se transforma. Ganhou da vida uma nova maneira de continuar. Ao se misturar em outras águas, ele entra numa nova perspectiva, avança, transforma-se, torna-se mais.”

Como é triste quando o rio acaba antes do mar!... Isso acontece quando não há remanso suficiente para conduzi-lo ao seu mistério final. Neste caso, seria acabar, antes de morrer. Mas não foi o caso da Camila!... Podemos ter a certeza disso, pelo testemunho cristão de sua vida e concretizada também pela solidariedade de encontros dos amigos, percebida durante e após a sua morte, que agigantou o rio de sua vida e não permitiu que ele se enfraquecesse ou ficasse só.
Só morre antes de chegar ao mar quando lhe faltam afluentes, águas fraternas que lhe emprestem corpo para chegar ao mar. Não foi mesmo o caso de Camila. Ela viveu plenamente, apesar de sua tão pouca idade!... Uma filha de Deus, em todos os exemplos de sua vida. Uma bênção para qualquer família. Uma vida santa e digna.
O sofrimento é o acontecimento humano que coloca todos nós numa mesma plataforma. Quando sofremos e choramos, somos todos iguais: sábios e ignorantes, mestres e aprendizes. E essa solidariedade na dor, torna-se prova da autenticidade e plenitude da vida de Camila. Conscientes da beleza de sua vida e de sua morte, mas sabendo que a condição humana é marcada pela precariedade, não devemos deixar a vaidade ser excessiva. A humildade também foi a tônica de sua vida, assim como deve ser a de qualquer cristão.
Lembra o Pe. Fábio de Melo que respeitar o sagrado é preservar o mistério, que faz o amor ser eterno. Flores plantadas no lugar certo florescerão com alegria. Há sempre um lugar certo em que precisamos estar. Eu preciso de Deus, essa força regente, absoluta, determinante.
 Se eu não me volto para ELE, corro o risco de me desprender de minha possibilidade de ser feliz. No finito que me envolve, posso descobrir o desafio de antecipar no tempo o que NELE já está realizado. Eu DELE me apercebo, assim como o girassol se apercebe do Sol, porque não pode viver sem a sua luz.
Como afirma o Pe. Fábio de Melo, Deus é o guardião de todas as minhas possibilidades ontológicas. Deus é o nosso Sol, e nós não poderíamos chegar a ser quem somos, em essência, se NELE não pusermos a direção dos nossos olhos. Assim, precisamos descobrir nas realidades humanas algumas escadarias que possam nos ajudar a chegar ao céu. Que todos nós tenhamos esse discernimento.
Mas não podemos pensar que a escadaria é o lugar definitivo de nossa busca. Parar os nossos olhos no humano, que nos fala sobre Deus, é o mesmo que nos privar do direito a transcendência. O humano é frágil, temporário, limitado, mas pode ser um condutor para podermos encontrar o que verdadeiramente importa, que é a transcendência.
Nós somos como girassóis. Há em cada um de nós uma essência que nos orienta para o verdadeiro lugar a que precisamos chegar. Mas nem sempre realizamos o movimento de procura pela luz. O girassol já sabe que só poderá ser feliz se para o Sol estiver orientado. É por isso que não perde tempo com as sombras. Nós, seres humanos, precisamos aprender isso.
A crença no Sagrado exige muita grandeza humana. Crer em Deus é muito mais sofisticado que não crer, pois exige sensibilidade e contemplação do amor. As nossas sábias experiências de vida envolvem o nosso coração, expulsam e silenciam as lembranças que nos infelicitam, para um novo homem reaparecer. A exemplo de Maria, quando viu seu filho morrer, precisamos nos reconciliar com a verdadeira vida, feita de sensações maduras, amorosas, alegres e felizes.
Depois da morte, a ressurreição é a recompensa. A dor da morte é aguda, mas profundamente fecunda porque serve como referencial para alguns questionamentos. A sabedoria carece de dor para crescer. E não há nada que possa oferecer alento aos desatinos de nossas almas, diante da simplicidade dessas circunstâncias, diante da morte. Este é o mistério da dor, abrigo de nossas fragilidades e inquietações. Quando bem interpretado e administrado com paciência, o sofrimento se transforma num impulso fantástico para as superações que precisamos viver no prosseguimento da vida.
Que todos nós saibamos aproveitar e nos aperfeiçoar com o exemplo deixado por Camila, que está hoje, com toda certeza, no céu, pertinho de Deus e de Nossa Senhora. E que Deus a tenha, junto com a Valentina e todos os nossos queridos que já passaram por nós.
                          Talita Batista
                           Em 29 de setembro de 2012.

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Poema da Noite Uma vez que já tudo se perdeu - Ruy Belo


Contribuição de Lucia Marina e Eusébio Galvão, "in memórian" do amigo Joaquim Gonçalves que partiu em 23/9/2012.


Que o medo não te tolha a tua mão
Nenhuma ocasião vale o temor
Ergue a cabeça dignamente irmão
falo-te era nome seja de quem for

No princípio de tudo o coração
como o fogo alastrava em redor
Uma nuvem qualquer toldou então
céus de canção promessa e amor

Mas tudo é apenas o que é
levanta-te do chão põe-te de pé
lembro-te apenas o que te esqueceu

Não temas porque tudo recomeça
Nada se perde por mais que aconteça
uma vez que já tudo se perdeu


Ruy de Moura Belo (São João da Ribeira, Rio Maior, Portugal, 27 de fevereiro de 1933 - Queluz, 8 de agosto de 1978) - Além de poeta, foi contista e ensaísta. Licenciado em Filologia Românica e em Direito pela Universidade de Lisboa, obteve o grau de Doutor pela Universidade Gregoriana de Roma. Também foi tradutor de Antoine de Saint-Exupéry, Montesquieu, Jorge Luís Borges e Federico García Lorca.

Paralimpíadas é a mãe




Texto escrito por JOÃO UBALDO RIBEIRO – Em O Estado de S.Paulo, em 23 de setembro de 2012

Certamente eu descobriria no Google, mas me deu preguiça de pesquisar e, além disso, não tem importância saber quem inventou essa palavra grotesca, que agora a gente ouve nos noticiários de televisão e lê nos jornais. O surpreendente não é a invenção, pois sempre houve besteiras desse tipo, bastando lembrar os que se empenharam em não jogarmos futebol, mas ludopédio ou podobálio. O impressionante é a quase universalidade da adoção dessa palavra (ainda não vi se ela colou em Portugal, mas tenho dúvidas; os portugueses são bem mais ciosos de nossa língua do que nós), cujo uso parece ter sido objeto de um decreto imperial e faz pensar em por que não classificamos isso imediatamente como uma aberração deseducadora, desnecessária e inaceitável, além de subserviente a ditames saídos não se sabe de que cabeça desmiolada ou que interesse obscuro. Imagino que temos autonomia para isso e, se não temos, deveríamos ter, pois jornal, telejornal e radiojornal implicam deveres sérios em relação à língua. Sua escrita e sua fala são imitadas e tidas como padrão e essa responsabilidade não pode ser encarada de forma leviana.
Que cretinice é essa? Que quer dizer essa palavra, cuja formação não tem nada a ver com nossa língua? Faz muitos e muitos anos, o então ministro do Trabalho, Antônio Magri, usou a palavra "imexível" e foi gozado a torto e a direito, até porque ele não era bem um intelectual e era visto como um alvo fácil. Mas, no neologismo que talvez tenha criado, aplicou perfeitamente as regras de derivação da língua e o vocábulo resultante não está nada "errado", tanto assim que hoje é encontrado em dicionários e tem uso corrente. Já o vi empregado muitas vezes, sem alusão ao ex-ministro. Infutucável, inesculhambável e impaquerável, por exemplo, são palavras que não se acham no dicionário, mas qualquer falante da língua as entende, pois estão dentro do espírito da língua, exprimem bem o que se pretende com seu uso e constituem derivações perfeitamente legítimas.
Por que será que aceitamos sem discutir uma excrescência como "paralimpíada"? Já li alguns protestos na imprensa e na internet, mas a experiência insinua que paralimpíada chegou para ficar e ter seu uso praticamente imposto. Ao contrário dos portugueses, parecemos encarar nossa língua com desprezo e nem sequer pensamos em como, ao abastardá-la e ao subordiná-la a padrões e usos estranhos a ela, vamos aos poucos abdicando até de nossa maneira de ver o mundo e falar dele, nossa maneira de existir. Talvez isso, no pensar de alguns, seja desejável, mas o problema é que, por esse caminho, nunca se chegará à identificação com o colonizador que tanto se admira e inveja, mas, sim, à condição cada vez mais arraigada de colonizado, que recebe tudo de segunda mão, até suas próprias opiniões e valores.
Mas há um pequeno consolo em presenciar esse tipo de vergonheira servil. Consolo meio torto, mas consolo. Refiro-me ao fato de que nossa crescente ignorância não se limita a estropiar nossa língua, mas faz o mesmo com idiomas que consideramos superiores em tudo, como o inglês. Hoje isto caiu em desuso, mas smoking já foi aqui "smocking" durante muito tempo. Assim como doping já foi "dopping". Quanto a este, assinale-se que o som, digamos fechado, do O, em inglês, foi trocado aqui por um som aberto, é o dópin. O mesmo tipo de fenômeno ocorreu com volley, cuja primeira vogal em inglês é aberta, mas em brasinglês é fechada e já entrou no português assim.
No setor de nomes próprios, a vingança é mais completa. Em primeiro lugar, transformamos os sobrenomes deles em prenomes nossos e enchemos o País de jeffersons, washingtons, edisons (aliás, em brasinglês, Edson, como Pelé), lincolns, roosevelts e até mesmo kennedys e nixons. E não perdoamos os contemporâneos. Não só trocamos o H por E em Elizabeth, como até hoje há publicações que se referem a Margareth Thatcher, ou à princesa Margareth. Esse nome nunca teve H no fim, mas aqui é assim não só em muitos jornais quanto no caso de nossas meninas, como atesta o exemplo da minha linda e talentosa conterrânea Margareth Menezes. E das Nathalies que assim foram batizadas em homenagem a Natalie Wood. E dos Phellipes, inspirados no príncipe Philip, das Daianes da Diane, a lista não acaba.
De maneira semelhante, também alteramos não somente a pronúncia, mas as regras gramaticais do inglês. Por exemplo, é quase unânime, entre todos os numerosos militantes do brasinglês, a convicção de que qualquer plural inglês terminado em S deve ter essa letra precedida de um asterisco. Acho que é barbada apostar que, em todas as cidades brasileiras de médias para cima, serão encontrados pelo menos uma placa e cinco cardápios anunciando "Drink's". É mais chique e até o Galeão, não há muito tempo, tinha armários (lockers) de aluguel, encimados pelo letreiro "Locker's", o que fazia os falantes de inglês entender que os armários eram propriedade de um certo Mr. Locker. No Galeão, aliás, gate (portão) já soou como gay tea (chá gay) e shuttle service (ponte aérea) como chateau service (o que lá seja isso). Agora mudou, mas to (para) deu para sair um prolongado tchuu, que, a um ouvido americano, há de soar como uma onomatopeia de espirro ou partida de maria-fumaça.
Mas, até mesmo por causa ("por causa", não, por conta; agora só se diz "por conta", vai ver que vem do inglês on account of) dessas paralimpíadas, receio que as contraofensivas nacionais não serão suficientes para neutralizar a subordinação de nossa cabeça, através do incalculável poder da língua. Acho que, coletivamente, aspiramos a essa subordinação. Tem sido muito lembrado o complexo de vira-lata de que falou Nélson Rodrigues. Pois é, é isso mesmo e é também caminho seguro para sermos vira-latas de verdade.

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

TALENTO MUSICAL ABORTADO




  
  Texto escrito por Agenor Portelli Teixeira Magalhães

Certo dia papai surgiu em casa com uma novidade.  Os filhos iriam aprender instrumentos musicais para formar um conjunto. Papai foi um homem  cheio de idéias e iniciativas.  Foi com ele que aprendi os primeiros passos nos trabalhos de carpintaria, alvenaria, hidráulica, eletricidade e pintura. Conforme já relembrei em várias crônicas familiares, ele iniciou um cultivo de flores em nossa chácara, que ficou conhecida como Chácara das Flores; produziu os biscoitos Maravilha e a Mariola Magalhães. Entre uma fabriqueta e outra de fundo de quintal, ele ainda preparou com vovó uma receita de doce de leite, cujo segredo é o ponto para não açucarar. Iniciou a fabricação artesanal de um vinho licoroso de laranja que armazenava no  sótão da lavanderia. Quando descobriu que eu estava tomando o vinho escondido jogou fora todo o estoque e nunca mais produziu uma garrafa sequer.

Acredito que a idéia dos músicos foi para concorrer com nossos primos que tocavam violino e clarineta. Coube a Gastão a clarineta, ao Luiz o piano, a mim o violino, a Paulo a flauta. Como maestro do conjunto, papai ficou com o saxofone.
Papai no sax e Gastão na clarineta chegaram a tocar algumas musicas, recordo-me de Saudades do Matão e Sobre as Ondas.  De Luiz me lembro  tocar  um feijão com arroz, talvez o  Tico-tico no fubá, nada indicava que seria um Anoeli ou Sergio Mendes. Abandonou o piano para dedicar-se ao Cantor Cristão.  Paulo desistiu da flauta e passou para a gaita, era mais fácil carregar no bolso traseiro da calça. Mamãe se entusiasmou e contratou a D. Juracy como professora de piano. Dona Juracy lembrava aquele garçom sonolento dos programas humorísticos, o Tutuca.
Célia apelidou-a de Tanajura, mas não me lembro que tivesse um traseiro para merecer tal alcunha. Quando eu chegava do Liceu, encontrava Dona Juracy dormindo na cadeira e mamãe dormindo debruçada sobre o teclado do piano. Desistiu do piano,  dizendo que sua vocação era o violão. Papai  contratou o maestro Ferreira  para as aulas. Também não deu certo e mais no final da vida descobriu sua verdadeira vocação: cantora de coral.
Papai, fazendo dueto com Gastão, passava  noites tentando acertar o passo. Acho que foi nessa ocasião que me viciei em cinema para fugir dos seus sopros. De segunda a domingo eu freqüentava os cinemas poeiras de Campos junto com os amigos Dalmir e Chiquinho. Comprei um álbum de figurinhas e colecionei as fotos dos astros daquela época, de Cantinflas a Clark Gable, dos irmãos Marx ao Gordo e Magro, Alan Lad, Randolf  Scott, os mocinhos Roy Rogers e John Mc Brown.  
Áurea, entusiasmada com as partituras que Luiz e  vovó tocavam a quatro mãos, iniciou seus estudos. Não sei se hoje seria capaz de dedilhar qualquer coisa. Célia, por ser ainda criança e uma nulidade em música como eu,  ficou fazendo a parte da galera. Vera e Renato não eram nascidos ou eram muito pequenos e não participaram daquele vexame.
Reservei minha participação no grupo musical como grand finale.
Três vezes por semana, à noite, lá ia eu para minhas aulas com o professor Fenelon.
Fenelon era alfaiate de profissão e violinista nas horas vagas. Na sua alfaiataria, entre ternos e manequins, ele tentava me ensinar a escala musical. Meus dedos eram duros e por mais que tentasse não conseguia relaxar para tirar das cordas os sons desejados. Era um sofrimento. Lamento que o professor Fenelon estivesse mais preocupado com a receita que eu lhe levava no fim do mês do que ter sido honesto suficiente com meu pai e dito claramente que  eu não levava jeito para a coisa. Após um ano de aulas, papai me levou para demonstrar as habilidades para vovó. Mal consegui tirar as notas musicais. Desafinava, e as cordas de crina pareciam que iam se romper a qualquer instante em  sinal de protesto.  Vovó não me levou a sério, mas também não fez as críticas como de costume. Ela era bastante sagaz em suas observações e perdeu uma oportunidade de ouro para dar um basta. Naquele momento negou fumo e minha agonia acabou levando mais um ano. Por algum tempo, as aulas do Fenelon foram interessantes, pela presença das suas filhas. A partir de certo momento deixei de freqüentar as aulas, mas saia de casa com a caixa de violino debaixo do braço e ia  direto  para o cinema. Só aparecia nas aulas para pagar o Fenelon, que embolsava, com satisfação, a  mensalidade. Certa noite, na porta do Trianon esperando o início da sessão, matando  aula, tentaram me roubar o violino. Como é do meu temperamento, lutei bravamente em defesa do meu instrumento, embora o que melhor deveria ter feito era deixar o ladrão ir embora com o violino. Para me defender contra os maus elementos comprei uma faca e passei a levá-la na cintura. Em seguida, achei melhor  deixar o violino em casa  e só levava a caixa. Era mais leve e o violino não fazia falta mesmo. Depois de dois anos de perda de tempo e dinheiro entreguei os pontos, e dei inicio à dissolução do promissor conjunto. Daí pra frente foi cada um por si.   
Quando estive com Gastão em outubro de 2004, ele me confessou que se arrependia amargamente de ter abandonado a clarineta. Não sei porque, mas fiquei com uma sensação de culpa. Ele está hoje com 70 anos e me pergunto se não está na hora dele retornar seus ensaios de clarineta. Quem sabe ele não seria o único músico da família a dar certo?

Nota: quando escrevi a crônica meu irmão Gastão estava com 70 anos, agora em 2010, faz 75 anos.