terça-feira, 5 de março de 2013

Vinícius e a Bahia





Texto escrito por Gilda Mattoso, viúva de Vinicius de Moraes. Enviado para publicação neste blog por Lúcia Marina Galvão de Queirós, prima da autora.

Publicado no Jornal Correio da Bahia e no blog O que a Bahia Quer Saber, em 02 de março de 2013, em comemoração aos 100 anos de Vinícius de Moraes.

Quando viemos da Europa para continuar nossa vida juntos, em dezembro de 78, a primeira viagem foi a Salvador, justamente por Vinicius gostar tanto da cidade e ter tantos amigos ali. Eu já morava havia quase seis anos na Europa e só tinha conhecido Salvador ainda menina, muito en passant, numa viagem ao Ceará. Ele queria que eu conhecesse bem a cidade que tanto amava. Foi a primeira de uma série de viagens mas, pelos mais diversos motivos, foi marcante em minha vida.

Nos hospedamos no Convento do Carmo por uns dias e saíamos sempre com Roni e Eliane, com Walter e Luz da Serra Queiroz, com Micheline e Elsimar Coutinho, Sonia Gantois, entre outros amigos (que depois da morte dele eu conservei). Depois, nos mudamos para Itapuã, para a casa/ateliê de Calazans Neto e Auta Rosa, seus amigos fraternos dos tempos em que morou na cidade.  Lá, na linda casa do grande artista e sua adorável mulher, me senti totalmente à vontade. Vinicius, então, ficava de molho na piscina e sentava molhado nos sofás da dona da casa e solicitava guloseimas à fantástica cozinheira da casa. À noite, se juntavam a nós Zelia e Jorge Amado, Luiza e James Amado, outros amigos queridos de Vinicius que permanecem no meu coração. A insegurança inicial de ser tão menina e casada com um mito se dissipou pela acolhida desses amigos baianos tão especiais. 

Vinicius tinha paixão pela Bahia que cantou como se fosse sua terra. Nessa temporada, tive o impacto de conhecer, levada por ele, Mãe Menininha do Gantois que me recebeu com grande carinho, jogou búzios e tranqüilizou meu coração com relação a minha família, muito tradicional, que não recebeu muito bem meu casamento com um boêmio, quase 40 anos mais velho. Sem saber de nada, me assegurou: “Você tem muitos irmãos e estão todos com você, não se preocupe”,  disse a grande Ialorixá a quem Vinicius devotava o maior respeito e carinho. Foi ela que tirou dele o pavor de avião e, como ele era filho de Oxalufã, sempre se sentava numa poltrona ao lado da cabeceira da cama dela, que, como eu, era de Oxum. Vinicius sempre dizia: “Eu não sou de candomblé, eu sou de Mãe Menininha”. 

Herdei dele esse amor pela Bahia e, após a sua morte, trabalhei na produção para o Natal da TV Globo, em 1980, de um disco duplo em homenagem a ele com músicas, poesias e depoimentos de gente amiga. Fui assistente de produção do projeto, cuja titular era Marilda Pedroso, e incumbida de ir à Bahia, gravar os depoimentos desses e de outros amigos (Jenner Augusto, Carybé, entre outros).  Anos mais tarde, quis o destino que eu viesse a trabalhar com Maria Bethânia, depois com Caetano Veloso, por 15 anos, e há quase 10 anos com Gilberto Gil, o que me fez mais ‘baiana’ ainda.
 Devo a Salvador momentos lindos de minha vida e de minha filha, outra baiana de coração, desde que nasceu, há 23 anos. Acho que em tudo isso tem a mão generosa de Vinicius. Sempre que posso vou a Itapuã pra ver a bonita escultura dele que fica numa pracinha e traz ele sentado com uma mesinha ao lado onde repousa um copo! Gosto de me sentar na outra cadeira e seguro a mão da escultura e penso muito nele e em como ele adoraria estar mesmo ali.
E eu mais ainda. Como gostaria de rever a Bahia ao lado dele novamente!

Tenho ainda Yeda e Adailto Almeida, irmãos que conheci quando trabalhava na Polygram e que permanecem meus amados amigos até hoje. Eles são produtores dos melhores shows da cidade e amados por todos os artistas e  amigos que têm a felicidade de conviver com eles. Portanto, é uma legião de baianos da melhor qualidade que herdei de Vinicius e outros que conquistei.
Vinicius se sentia em casa nesta cidade abençoada pelos deuses e devia a ela momentos de rara inspiração, como na linda canção Tarde em Itapuã. Vinicius tem toda razão. E  agora, que celebramos o seu centenário, que bom que o CORREIO lhe presta esta minha homenagem.



RENÚNCIA DO PAPA BENTO XVI




Carta de um jovem sobre a renúncia do Papa Bento XVI

Tenho 23 anos e ainda não entendo muitas coisas. E há muitas coisas que não se podem entender as 8h da manhã quando te acordam para dizer em poucas palavras: “Daniel, o papa renunciou.” Eu apressadamente contestei: “Renunciou?”. A resposta era mais que óbvia, “Renunciou, Daniel, o papa renunciou!.

O papa renunciou. Assim amanheceu escrito em todos os jornais, assim amanheceu o dia para a maioria, assim rapidamente alguns tantos perderam a fé e outros muitos a reforçaram. Poucas pessoas entendem o que é renunciar.

Eu sou católico. Um de muitos. Desses que durante sua infância foi levado à missa, cresceu e criou apatia. Em algum ponto ao longo da estrada deixei pra lá toda a minha crença e a minha fé na Igreja, mas a Igreja não depende de mim para seguir, nem de ninguém (nem do Papa). Em algum ponto da minha vida, voltei a cuidar da minha parte espiritual e assim, de repente e simplesmente, prossegui um caminho no qual hoje eu digo: Sou católico. Um de muitos sim, mas católico por fim. Mas assim sendo um doutor em teologia, ou um analfabeto em escrituras (desses que há milhões), o que todo mundo sabe é que o Papa é o Papa. Odiado, amado, objeto de provocações e orações, o Papa é o Papa, e o Papa morre sendo Papa. Por isso hoje quando acordei com a notícia, eu, junto a milhões de seres humanos, nos perguntamos “por que?”. Por que renuncia senhor Ratzinger? Sentiu medo? Sentiu a idade? Perdeu a fé? A ganhou? E hoje, 12 horas depois, creio que encontrei a resposta: O senhor Ratzinger renunciou toda a sua vida.

Simples assim.

O papa renunciou a uma vida normal. Renunciou ter uma esposa. Renunciou ter filhos. Renunciou ganhar um salário. Renunciou a mediocridade. Renunciou as horas de sono pelas horas de estudo. Renunciou ser só mais um padre, mas também renunciou ser um padre especial. Renunciou preencher a sua cabeça de Mozart, para preenchê-la de teologia. Renunciou a chorar nos braços de seus pais. Renunciou a, tendo 85 anos, estar aposentado, desfrutando de seus netos na comodidade de sua casa e no calor de uma lareira. Renunciou desfrutar de seu país. Renunciou seus dias de folga. Renunciou sua vaidade. Renunciou a defender-se contra os que o atacavam. Sim, isso me deixa claro que o Papa foi, em toda sua vida, muito apegado à renuncia.

E hoje, voltou a demonstrar. Um papa que renuncia a seu pontificado quando sabe que a Igreja não está em suas mãos, mas nas mãos de alguém maior, parece ser um Papa sábio. Nada é maior que a Igreja. Nem o Papa, nem seus sacerdotes, nem os laicos, nem os casos de pedofilia, nem os casos de misericórdia. Nada é maior que ela. Mas ser Papa nesse tempo do mundo, é um ato de heroísmo (desses heroísmos que acontecem diariamente em nosso país e ninguém nota). Recordo sem dúvida, as histórias do primeiro Papa. Um tal... Pedro. Como morreu? Sim, em uma cruz, crucificado igual ao teu mestre, mas de cabeça para baixo. Hoje em dia, Ratzinger se despede de modo igual. Crucificado pelos meios de comunicação, crucificado pela opinião pública e crucificado pelos seus irmãos católicos. Crucificado pela sombra de alguém mais carismático. Crucificado na humildade que tanto dói entender. É um mártir contemporâneo, desses que se pode inventar histórias, a esses que se pode caluniar e acusar a vontade, que não respondem. E quando responde, a única coisa que faz é pedir perdão. “Peço perdão pelos meus defeitos”. Nem mais, nem menos. Quanta nobreza, que classe de ser humano. Eu poderia ser mórmon, ateu, homossexual e abortista, mas ver uma pessoa da qual se dizem tantas coisas, que recebe tantas críticas e ainda responde assim... esse tipo de pessoa, já não se vê tanto no mundo.

Vivo em um mundo onde é engraçado zombar o Papa, mas que é um pecado mortal zombar um homossexual (e ser taxado como um intolerante, fascista, direitista e nazista). Vivo em um mundo onde a hipocrisia alimenta as almas de todos nós. Onde podemos julgar um senhor de 85 anos que quer o melhor para a Instituição que representa, mas lhe indagamos com um “Com que direito renuncia?”. Claro, porque no mundo NINGUÉM renuncia a nada. Ninguém se sente cansado ao ir pra escola. Ninguém se sente cansado ao ir trabalhar. Vivo um mundo onde todos os senhores de 85 anos estão ativos e trabalhando (sem ganhar dinheiro) e ajudam às massas. Sim, claro.

Mas agora sei, senhor Ratzinger, que vivo em um mundo que vai sentir falta do senhor. Em um mundo que não leu seus livros, nem suas encíclicas, mas que em 50 anos se lembrará como, com um simples gesto de humildade, um homem foi Papa, e quando viu que havia algo melhor no horizonte, decidiu partir por amor à sua Igreja. Vá morrer tranquilo senhor Ratzinger. Sem homenagens. Vá morrer, como viveu mesmo sendo Papa: humildemente.

Bento XVI, muito obrigado por renunciar."

segunda-feira, 4 de março de 2013

VIDA DE EMPRESÁRIO NÃO É ESSAS COISAS!





 Texto escrito e enviado para o blog, por Agenor Magahães

Esta foi uma história cômica. Mas não podíamos sair impunes e por isso acabou nos custando caro, mais uma vez.
Aconteceu no âmbito da antiga Companhia Telefônica Brasileira-CTB, quando entramos numa concorrência para construção de torres de microondas no Estado do Rio de Janeiro. Era um conjunto de 12 construções iguais construídas em morros, nos lugares mais eqüidistantes do Estado. Apesar de termos ofertado o menor preço, a Comissão de Concorrência resolveu adjudicar-nos apenas três unidades. Ficou a promessa que, se nosso desempenho fosse razoável, poderiam aditar ao nosso contrato outro tanto de unidades. Para não perdermos a oportunidade resolvemos fazer um trabalho junto ao chefe da fiscalização, um arquiteto que já conhecíamos de outra obra da CTB em Campos que havíamos subempreitado com a Montreal Engenharia.
Estávamos, então, fazendo um trabalho de pressão junto à fiscalização para ver se levávamos mais algumas unidades das tais torres. O Dr. Caim nos dera o seu endereço, em São Gonçalo, para qualquer eventualidade.
Não perdemos tempo, eu e o Ernesto, meu sócio, resolvemos fazer uma visita “discreta” a ele num sábado pela manhã.
Chegando ao endereço, fomos atendidos por sua genitora e encetamos uma conversa amigável e ficamos sabendo alguns dados da vida particular do seu filho, destacando-se um fato que nos chamou atenção, ser o mesmo solteiro, apesar de já passado dos 40 anos. O Caim não estava em casa, jogava, naquele momento, pelo time de futebol do bairro, num campo de várzea ali próximo e a sua mãe nos indicou como chegar ao local. Tocamos prá lá. Esperávamos encontrá-lo atacando a meta adversária, mas qual a nossa surpresa ao depararmos com ele debaixo de uma das traves. Vestia vistosa camisa azul anil. Postamo-nos próximo a baliza prontos para uma “puxadinha” de saco na hora de uma defesa qualquer. O ponta adversário parece que desconfiou das nossas intenções, pois avançou célere em direção à bandeirinha de corner, enquanto o centroavante berrava qualquer coisa que não entendi. O ponta, de cabeça baixa, cruzou, o crioulo centroavante entrou arrebentando, chutou bola, grama e canela adversária. A bola passou rente a trave, com grande susto para Caim, que esbravejava com o zagueiro pela falha de marcação. Foi à linha de fundo buscar a bola para o tiro de meta e ainda assim não notara a nossa presença, fazíamos parte da torcida entusiasmada. Passou por nós com a bola debaixo do braço, cheio de pose, mas com fingida contrariedade com a postura da zaga. Ajeitou o balão de couro e ele mesmo tomou distância para dar o tiro de meta. Deu umas reboladas enquanto corria para tocar a bola para o beque junto à área. O jogo prosseguia com o time adversário dominando o meio de campo. Novo lançamento em profundidade obrigou-o a sair do gol para rebater com o pé, antes que o atacante pudesse finalizar. A sua saída de gol foi parcialmente desastrada, pois correu de encontro à bola, rebolando de tal maneira que quase furou. Olhando melhor, percebemos que o Caim tinha um bundão de dar inveja em muito baitola: era roliço e recheado, dentro de um calção justo. O beque central, um sarará com cara de mau, deu-lhe um esporro:
-Qual’é, ô Picolé!
Olhei para o Ernesto, que continha a custo o riso. Quando Caim retornou para debaixo dos paus, fizemos um elogio alto e exagerado para ele notar nossa presença. Olhou-nos com o rabo do olho e ficou ligeiramente encabulado. Achamos que não tinha nos reconhecido e calamos para evitar maiores constrangimentos. Finalmente, virou a cabeça e nos encarou rapidamente, nos reconhecendo, em definitivo. Permaneceu imóvel, debaixo do gol e vez por outra alisava a cabeleira e cofiava o farto bigode que alguns fios brancos denunciavam que eram pintados de preto.
Eis que em novo ataque do time adversário é lançado o arisco ponta direita, um baixinho barrigudinho, um verdadeiro corisco. O Caim lança um grito mais chegado ao histérico, esquecendo-se da nossa presença.
-Vai nele Sarará! (era esse o apelido do beque mal encarado).
-Não deixa chutar!-, reforçou o apelo.
A voz saiu meio anasalada e mais fina do que estávamos acostumados a ouvir. Cercado pelo Sarará, o ponta arisco ciscou pra lá, ciscou pra cá, não houve penetração de qualquer companheiro para receber o lançamento, então decidiu cruzar sobre a área para ver o que acontecia. Alçada a bola, veio ela descaindo na entrada da pequena área.  Era bola do goleiro. E o nosso herói foi lá. Deu um passe de balé, levantou a perna esquerda encolhendo o joelho, até a altura da barriga, elevou-se com graça no bico da chuteira do pé direito, tal qual um bailarino clássico, cheio de elegância e aprumo. Esticou-se o melhor que pôde no ar.  Aconteceu o inesperado: o balão de couro fugiu por entre seus bem tratados dedos e foi alinhar-se no fundo da rede. Ficamos boquiabertos com a cena seguinte: Caim esparramado no terreno careca da grande área, esmurrava desconsoladamente o solo. E o Sarará não perdoou:
- Seu viado, filho da puta, toda vez que vê o Roberval (o ponta arisco) se arreganha todo!
Resultado: não pegamos mais obra nenhuma e tivemos a pior fiscalização da nossa vida.



domingo, 3 de março de 2013

A COLEGIAL




Poema, em forma de acróstico, recebido por Lúcia Marina Galvão de Queirós, de autoria de um amigo do grupo, carinhosamente conhecido como Mabenne.
                           
LEVE E SUTIL EM SEUS GESTOS
UNIFICA CORAÇÕES.
COM FIRMEZA E BONDADE
IMPONDO SUA AMIZADE
ADOLESCENTE MENINA.

MUSA ANTIGA DO LICEU,
ALCANÇAVA NOTA DEZ.
RECICLANDO ENTRE COLEGAS,
IMENSURÁVEL BELEZA,
NOS BAILES COLEGIAIS
A DANÇAR COM SUTILEZA.


GUARDA DO TEMPO, SAUDADES,
AVENTURAS DOIDIVANAS...
LEVE PECADO MENTAL
VIBRAVA COM EMOÇÃO,
ATENTA PELA CENSURA
OUVIA MATERNO SERMÃO.

DENTRO DO TEMPO, LEMBRANÇAS...
ESCONDE NO CORAÇÃO.

QUASE PERDIA DE ANO
UNIDA A FESTINHAS BREVES
ESQUECENDO DE ESTUDAR.
INQUIETA, MAS ALEGRE,
RODAVA A BAIANA EM GRUPOS
ONDE, PROFESSORAS MADRINHAS
SEMPRE DAVAM -- AJUDINHA.
  Mabenne

FALTA UM CAVALO NA HISTÓRIA DE CAMPOS


 


           Texto escrito por Luiz Magalhães

         Percorrendo as praças e jardins de nossa cidade, constatei que não há um só herói ou homem público dessas terras perpetuado em estátua eqüestre. Todos à pé. Os estudiosos da matéria sabem há muito tempo que não se faz história sem cavalo e seu respectivo cavaleiro.
         Pegasus, o cavalo alado nascido do sangue da Medusa, e seu intrépido cavaleiro Perseu, filho dileto de Zeus, na Mitologia grega, era o símbolo da imortalidade até hoje almejada por muitos humanos em diversas crenças religiosas.
         As guerras de conquistas territoriais conferiram ao cavalo o papel de protagonista da História. Todo herói mítico precisa de um ator coadjuvante. E ninguém melhor para exercer esse papel do que o cavalo.
         O que seria de Dom Quixote de La Mancha sem o seu inseparável Roncinante? Vejam que, nas gravuras desse livro, sempre em primeiro plano aparecem cavalo e cavaleiro numa união perfeita de força e harmonia. No segundo plano, aparece o fiel escudeiro Sancho Pança, a pé.
         Nos filmes de Zorro, nenhum bandido por mais malvado que seja, consegue ser mais estrela do que o Silver. Foi por esse motivo que se criou aquela sentença para designar um bandido de terceira categoria: “cocô de cavalo de bandido”.  O cocô do cavalo do mocinho, em filmes de faroeste, sempre teve mais notoriedade do que qualquer bandido.
         Diz a História que do alto de um cavalo, o homem passou a ver o mundo numa outra dimensão.
         Por falta de leitura e de visão, Collor “caiu do cavalo”, porque na Presidência da República resolveu pilotar Jet-ski e avião a jato. Se posasse num cavalo, estaria até hoje como herói nacional. Poderia ter seguido o exemplo de Ricardo III, que ao perder seu companheiro mais fiel num confronto com o exército inimigo, proferiu a célebre frase: “Meu reino por um cavalo”. Aliás, essa frase não vale apenas para o Collor. Nenhum herói nacional atinou para esse fato. Faça um teste e confirme você mesmo. Tirando os PSI consagrados campeões em corridas no Hipódromo da Gávea como Gualicho, Tirolesa, Itajara, Falcon Jet e outros, que animais entraram para a História do Brasil? Qual o nome do cavalo de D.Pedro I? E o de D. Pedro II? Qual o nome do cavalo do Duque de Caxias? E o do Mal. Deodoro? E o do Floriano Peixoto? E o do Getúlio Vargas?
         O Gal. Figueiredo bem que tentou. O cavalo era bom, o cavaleiro é que não o acompanhava. Provavelmente, por serem bons navegadores, nossos ancestrais lusos não se exercitaram muito nessas artes eqüinas. Faltou-nos herança cultural. Para ser herói, é necessário conhecer História para que ela não se repita como farsa ou como tragédia. Quem já se esqueceu do cavalo de Tróia, presente de grego, com que Menelau ludibriou os troianos?
         Por ser um estudioso dessas questões eqüinas, Alexandre o Grande, com seu cavalo Bucéfalo, acompanhado de generais e milhares de guerreiros anônimos conquistaram um vasto império, desde a Macedônia até aos confins da Índia. Bucéfalo, morto em batalha, por este feito incontestável foi enterrado com honras marciais, e em sua memória, foi construída uma cidade que levou merecidamente seu nome. Ficava próxima de Alexandria. No enterro de Bucéfalo, Alexandre chorava copiosamente: “Oh! Bucéfalo, por que me abandonastes”?
         A leitura é fundamental. Através dela, Maomé tomou conhecimento de Pegasus e Perseu e a morte da Medusa. Ao ler o Apocalipse de João de Patmos, mais precisamente o capítulo que falava dos quatro cavaleiros que povoavam o panteão dos deuses e demônios, e que nos últimos dias assolariam o mundo com a Peste, a Guerra, a Fome e a Morte, muito impressionado, resolveu conferir. “Montado no seu cavalo alado El Borak que o transportou ao Sétimo Céu, onde recebeu a palavra de Allah, registrando no Corão, mais precisamente na “Surata da vaca”, a sua mais preciosa criação:” Criei-o diferente de tudo mais... Com ele, os escolhidos por Allah voarão sem asas e conquistarão sem espadas”! Até hoje, os árabes criam os descendentes de El Borak.
         Para quem duvidar, é só conferir – Maktub
         Se Jesus Cristo, ao invés de andarilho, montasse um cavalo azul celestial, se possível alado como o de Maomé, de ginete na mão, chicoteando os vendilhões do Templo, talvez não tivesse morrido na cruz, e seria acompanhado de uma legião de fiéis e discípulos, e a sua identidade não estaria sendo discutida agora depois da descoberta dos Manuscritos do Mar Morto.
         Por que não se fazem mais heróis como antigamente? A resposta é simples: por falta de um bom cavalo. Foi exatamente prevendo isso, que Calígula nomeou Incitatus, senador de Roma, cônsul honorário, tendo agraciado em vida, com todas as condecorações conferidas aos seus melhores generais comandantes das legiões romanas. É mole?
         O que seria de Napoleão Bonaparte sem seus famosos cavalos? Montado em Vizir, seu cavalo cinza, Napoleão atravessou a Europa inteira  tendo sido derrotado na campanha da Rússia pelo General Inverno. Na batalha de Waterloo, Napoleão conheceu a derrota, montando Morengo, o tordilho árabe descendente de El Borak. Se fosse supersticioso como o Zagallo, e estudasse um pouco de numerologia, com ênfase no número treze teria trocado os cavalos, e quem sabe, não seria vitorioso na Rússia com Marengo e em Waterloo com Vizir.
         Dos cavalos históricos mais notáveis que conheço, sem dúvida alguma, nenhum sobrepujou El Morzillo, o cavalo andaluz de Cortez. Os índios guatemaltecos ao se depararem com as tropas de Cortez, não temeram seus soldados: temeram El Morzillo. Diante de um deus guerreiro de quatro patas, tendo no seu dorso uma figura estranha em armadura de aço, saltavam de precipícios para a morte em louca debandada. Ferido em batalha, o cavalo de Cortez não pode ser levado de volta à Europa. Abandonado pelos espanhóis, El Morzillo passou a ser cultuado como deus pelos nativos que traziam dos mais distantes lugares, flores e frutas para aliviar a sua agonia. Quando morreu, tornou-se deus das tempestades dos guatemaltecos, que ergueram em seu templo uma estátua monumental, feita à sua imagem e semelhança.
         Essa breve exposição de fatos históricos é suficiente para que se conclua que sem cavalo não há herói.
         Para corroborar essa tese, cito mais um exemplo: o corcel negro de Emiliano Zapata, El Criolo, considerado até hoje como deus entre os “chicanos”. Ainda em nossos dias, o corcel negro é visto em “aparições” o ano inteiro para os habitantes do Estado de Morelos. Diz a lenda popular que “enquanto o cavalo negro procurar por Zapata, Zapata ainda vive”. Graças a essa lenda é que surgiu o novo Exército de Libertação Zapatista.
         Para que ninguém levante a argumentação de que essa questão de cavalos e cavaleiros é coisa da Idade Média, de lutas entre mouros e cristãos, é bom recordar que recentemente, depois de montar vários cavalos de sangue nobre, quartos-de-milha por excelência, em filmes de faroeste, o caipira Ronald Reagan conseguiu se eleger presidente dos Estados Unidos.
         Em torno dessas considerações, numa era em que as ideologias políticas acabaram, talvez o que faltou ao Brizola para chegar à Presidência da República, foi um cavalo. Já imaginaram um “caudilho dos Pampas”, andando à pé, subindo morro na sola de sapato? E se fosse num corcel ligeiro, cavalgando ondas de um mar revolto, qual seria o resultado eleitoral?
         Como esse ensaio está mais para parábola do que para teorema, já que nada quero demonstrar, moveu-me uma única curiosidade e indagação: falta um cavalo heróico, mesmo que não seja de linhagem nobre, na História Oficial de Campos. Para dirimir possíveis dúvidas, recorri ao professor, escritor, pesquisador e acadêmico campista, Dr. Jorge Renato Pereira Pinto, que afirmou com bastante segurança, que o único eqüino a participar da história campista foi o “xucro” da venerável senhora Benta Pereira no episódio da “Guerra dos fidalgos”.
         Durante o episódio pela disputa de terras e gado com o Visconde dos Assecas, os sediciosos se concentraram em frente à Câmara dos Senadores, e entre alaridos e instigações dos incendiários e a turma do “deixa-disso”, alguém por descuido cuspiu uma “binga” de cigarro de palha ainda aceso no ouvido do cavalo. Como se estivesse possuído pelo demônio, o animal não encontrando outro caminho, adentrou pela Câmara, disparando coices para todos os lados, só restando à octogenária senhora, diante do espanto dos legisladores, proferir o célebre brado: “Aqui, até as mulheres lutam”!

                           

Nota – Essa matéria foi publicada pelo Monitor Campista e lida na Academia Campista de Letras pelo Imortal Jorge Renato Pereira Pinto (falecido) para gargalhadas do público presente.
         ´