quarta-feira, 4 de julho de 2012

CRÔNICA DE UMA REVOLUÇÃO ANUNCIADA



Texto escrito por Agenor  Portelli Magalhães

FUI PRESO, TORTURADO E  HUMILHADO, Memórias de um ex-esquerdista
2005

Iniciava-se o ano de 1964. Eu havia colado grau no final de 1963.
Enquanto procurava emprego reunia-me com os colegas da faculdade para discutirmos o mercado de trabalho e os rumos do país.
Estávamos uma noite no Chalé, na praia de Icaraí, bar cult da época. Já havíamos entornado vários copos de chope  quando encosta o camburão do DOPS.
Havia muita tensão na época, os diretórios acadêmicos dominados pelos comunistas, comunistas esses que eu ajudara a colocar lá quando ainda na faculdade, greves de sindicatos, comícios contra o capitalismo e o escambau à quatro. João Goulart não tinha mais o controle institucional do país. Era uma anarquia geral. Mandavam  os sindicatos, também nas mãos dos comunistas, enquanto nas forças armadas o Almirante Aragão  insuflava os marinheiros à rebelião, subvertendo a hierarquia, tão cara aos militares. As ligas camponesas de Francisco Julião a avançar sobre propriedades privadas em ação  nefasta tal qual  o  MST de hoje.
Os policiais desceram do camburão e começaram a pedir documentos nas outras mesas. Estava com um mau pressentimento. Chegou a nossa vez e, um primo de Heloisa resolveu desafiar os policiais negando-se a entregar o documento de identidade que ele tinha,   afirmando que como estudante  podia portar tão somente a dita carteira de estudante. Aporrinhado, o policial dirigiu-se a mim, único a não puxar  documento do bolso. Disse que não tinha documento nenhum, que nunca levava comigo para não perder  e que não era exigível em vista a Constituição do país. Não deu certo, disse que eu estava preso. Entrei no camburão e eles começaram a rodar por Niterói. Pararam numa esquina onde tinha um grupo falando alto. Pedi a Deus que eles prendessem alguém para eu ter companhia no xadrez. Nada, foram em frente, cochichando o tempo todo. Tinha a certeza que iam me desovar em um lixão qualquer. Um deles voltou-se para mim e perguntou o que eu fazia.  Disse que era engenheiro. Naquela época diploma universitário valia muito. Sussurraram qualquer coisa de novo e percebi que meu destino estava selado. Eles sabiam que uma vez solto eu ia denunciá-los  por arbitrariedade. Senti-me torturado psicologicamente, o tempo não passava, pareciam horas intermináveis, embora apenas 25 minutos tivessem decorrido desde a minha detenção.  Para minha humilhação total, deixaram-me em plena Praia de Icaraí, na frente de uma multidão de transeuntes. Desci na maior cara de pau assoviando desafinado, pois o nervosismo fez minha boca ficar torta. Dei um aceno para os policiais para fingir que eram meus conhecidos. Não colou, os transeuntes olhavam para mim como se eu fosse um malfeitor, no mínimo mais um subversivo ou moleque que aprontara alguma. Corri para casa,  peguei todos os documentos que tinha e voltei para o Chalé onde encontrei a turma toda lá. Indignado, pois eles não demonstravam nem estar aí, fui logo empombando. P... da vida, perguntei porque não foram me libertar no DOPS. Estivemos lá, - responderam -, mas nos informaram que não havia ninguém preso. Voltamos para te esperar aqui. Seu chope já está esquentando, beba logo.

Passaram-se 40 anos.
Com a farra que a Secretaria de Direitos Humanos está fazendo com o dinheiro do povo, resolvi  saber como me habilitar a uma indenização e aposentadoria. Afinal eu fora preso e o jornalista Cony apenas perdera um emprego. Na minha avaliação, a meia hora que passei preso entre a vida e a morte valia mais que o emprego do Cony.
Por telefone expliquei em detalhes o meu caso. Disseram que eu não me enquadrava na lei da anistia. Que eu fui preso  no governo do João Goulart e não valia. Só no período entre o inicio da ditadura e a promulgação da lei da anistia. Quiseram saber se eu fui anistiado. - De que, perguntei? – O senhor  não seqüestrou, não matou, não guerreou, não fugiu  para outro país? – Não, nada disso, respondi. – Sua ficha no DOPS está limpa, me perguntaram? -Limpíssima, respondi. - Então não vale, para receber  indenização a ficha do DOPS tem que ser suja e quanto mais extensa melhor, detalhando  sua atividade subversiva. Parece que não é o seu caso, responderam-me desolados.
Meu sonho de uma velhice tranqüila morreu por aí.
Maldita ficha do DOPS!
































segunda-feira, 2 de julho de 2012

PSICANÁLISE DA VIDA COTIDIANA Uma reflexão sobre a Dor da Interdição



Autor do texto: CARLOS VIEIRA
Contribuição de Eusébio Galvão Queirós

O ser humano vem ao mundo numa alternância de dor e prazer. A dor do parto, ainda que profunda e angustiante, anuncia a satisfação da existência da vida pós-uterina. Os gritos sucedâneos de uma mãe, as contrações uterinas e o choro aflito de um bebê se misturam com o sorriso e a alegria de um nascimento.
Com o nascimento vêm os impulsos, as necessidades e os desejos. Os primeiros movimentos instintuais e desejosos são em busca de sobrevivência, segurança física e psíquica. O ato de mamar revela a necessidade de aplacar a fome e ser acolhido afetivamente pela mãe. Essa experiência marca a equação ideal: o outro é aquele que satisfaz a minha necessidade e o meu desejo. Uso aqui, caro leitor, necessidade como algo corporal, físico, instintual; desejo com expressão do psíquico. Somos, afinal, seres psicossomáticos.
Feito esse preâmbulo, vou me restringir à experiência de interdição do desejo, da sua dor mental, consequências e alternativas criativas.
Vivemos de sonhos, fantasias e expectativas de vivencias satisfatórias. Ninguém, diga-se de passagem, deseja conscientemente sofrer ou ser privado de qualquer desejo. O mito da alma gêmea é a evidência da ânsia pela completude. Ser completo é não ter falta, não ter limitações, ter tudo e conseguir tudo, realizando desse modo um outro mito – o mito do paraíso. Paraíso no sentido de uma vida permanente em estado de prazer. Acontece que a realidade nem sempre atende àquilo que almejamos.
Uma mãe que gratifica é a mesma mãe que frustra – a vida começa assim. Um desejo é satisfeito e outro é interditado, não porque seja contra alguém, mas sim, por uma questão de impossibilidade real da satisfação. Instala-se dessa maneira a experiência de frustração do desejo. E agora, como procede a pessoa que se sente interditada? É claro que sente dor, dor psíquica. Sente na “própria pele” a impotência, a limitação, o vazio, a ausência da sua expectativa, a dor que Freud cunhou como angústia de castração, angústia da falta. No instante da “interdição do desejo” a mente mostra pelo menos duas alternativas: ou adiar e tentar alterar a realidade, para que a mesma possa atender ao desejo: alternativa criativa; ou enlouquecer de ódio e violência: alternativa destrutiva.
Inferimos aqui duas saídas: uma, como movimento criativo, sublimatório e sadio, ainda que atravessando e suportando a dor psíquica; outro, a recusa, o ódio à frustração, a incapacidade de tolerar e esperar, apontando para mecanismos psicopatológicos tais como: bulimia, anorexia, neuroses graves, psicoses, drogadições, roubo, crime etc.
A expressão poética de Manuel Bandeira, e sua competência em ter convivido com a dor mental, são um exemplo da alternativa criativa, acima mencionada. Deguste, caro leitor, a beleza desse poema, chamado de “Desencanto”:
Eu faço versos como quem chora
De desalento... de desencanto...
Fecha meu livro, se por agora
Não tens motivo nenhum de pranto.
Meu verso é sangue. Volúpia ardente...
Tristeza esparsa... remorso vão...
Dói-me nas veias. Amargo e quente,
Cai, gota a gota, do coração.
E nestes versos de angústia rouca
Assim dos lábios a vida corre,
Deixando um acre sabor na boca
- Eu faço versos como quem morre.
A capacidade de pensar, a inspiração artística, a competência de conviver com momentos de desencantos, como nosso Poeta Maior, adiar o desejo e procurar alternativas possíveis, ainda que pequenas e limitadas, a ciência, a arte, a literatura e a “civilização dos instintos” (Freud), são expressões sadias de uma mente que não sucumbiu à interdição.
O psicanalista Juan-David Nasio, em seu belo livro “O livro da dor e do amor” (Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro, 1977), escreve no começo do seu texto uma frase brilhante e realista: “O amor é uma espera e a dor, a ruptura súbita e imprevisível da espera.”
Passeando por questões relativas à impossibilidade de realizar – o desejo – Nasio aponta para uma saída: “Vê-se bem que a carência não é apenas um vazio que aspira o desejo; ela é também um polo organizador do desejo. Sem carência, quero dizer, sem esse núcleo atraente que é a insatisfação, o impulso circular do desejo se perturbaria e então só haveria dor. Vamos nos expressar de outra maneira. Se a insatisfação é viva, mas suportável, o desejo continua ativo e o sistema psíquico continua estável”.
Ainda vale a pena ter Esperança! Algum leitor pode me achar um “romântico beleza”. Não, sou um romântico com idealismo por um mundo mais justo socialmente que acredita numa Justiça menos “cega”; que nutre a fantasia de realizar sonhos quase impossíveis; que ainda nutre a possibilidade de uma reforma política sem ingerência de corrupções e falta de ética; que visualiza ainda a possibilidade de o homem não destruir tanto a si próprio nem ao seu Planeta Terra. Que a Rio+20 não tenha naufragado na Baía da Guanabara.
Carlos.A.Vieira, médico, psicanalista, Membro Efetivo da Sociedade de Psicanálise de Brasilia e de Recife. Membro da FEBRAPSI e da I.P.A - London.


HOLOCAUSTO


Crônica escrita por Agenor Portelli Teixeira Magalhães, em resposta ao discurso de  Ahmadnejad no evento Rio+20.

À cerca de 3.250 anos o Faraó mandou matar crianças para evitar o crescimento da nação judaica, então escrava, e assim evitar uma ameaça de levante no Egito.  Há 2.000 anos Herodes, o Grande, reeditando o faraó, teria mandado matar todas as crianças com menos de um ano nascidas em Belém, devido a uma profecia de que um descendente de Davi ali nascido iria pleitear o trono da Judéia.
Durante a inquisição, em Portugal e Espanha, judeus e cristãos novos que não conseguiam transmitir sinceridade na sua conversão foram sacrificados na fogueira por heresia. Cenas dramáticas foram descritas por historiadores, com relatos inimagináveis:
“Mães judias, obrigadas a entregar seus filhos aos inquisidores do Tribunal do Santo Oficio, estraçalhavam os corpos das crianças para não serem arrebatadas dos seus braços e levadas ao suplício”.
“Herege, herege, confesse seus pecados - bradava o inquisidor com o crucifixo apontado para o rosto da criança”. A criança teria confessado os pecados e como castigo teve as mãos queimadas. A criança tinha apenas seis meses de idade.
Milhares de judeus foram levados à fogueira por Torquemada e Ximenes, com a cumplicidade dos reis de Portugal e da Espanha (os famosos reis católicos Fernando e Isabel).
Outro dia, Lula compareceu a uma cerimônia na sinagoga para lembrar os mortos no holocausto nazista. Os judeus fazem questão de transmitir às gerações essa tragédia, que eles não reivindicam para si tão somente, sabem que poloneses não judeus e ciganos também foram martirizados.
Como o Vaticano fez vista grossa ao genocídio nazista, é possível que nas comunidades eclesiais de base, que Lula freqüentou no inicio da sua carreira sindical, não tenham lhe ensinado nada sobre isso. De qualquer modo ele esteve lá e colocou o solidéu na cabeça. Pode ser que isso tenha arejado a cabeça de Lula quanto aos maus conselhos que andou recebendo dos seus assessores quando visitou paises árabes de pequena expressão e relegou Israel a grande esquecimento em sua viagem ao Oriente Médio.
O presidente do Irã que não é árabe, mas que também odeia os judeus, já pediu a mudança de Israel para outro lugar da Europa. Como ninguém lhe deu ouvido, resolveu encomendar um livro para desmentir o holocausto, que segundo ele é pura imaginação judaica.
O historiador medieval Gervásio de Tilbury está com razão quando diz que os judeus vem sendo eliminados ao longo da historia, mas certo está também o garotinho judeu, que saindo chamuscado de um atentado terrorista em Jerusalém declarou:
- Eles podem nos arranhar, mas nunca vão acabar conosco.

Ao Livro Verde, a livraria mais antiga do Brasil




Texto publicado no Jornal "O Monitor Campista", edição 419, de 02/07/1844

Contribuição do Dr. Sávio Gomes

 
Corria o mês de junho de 1844, há  168 anos, numa quinta-feira, dia 13 daquele mês, que a livraria Ao Livro Verde abria suas portas na então rua da Quitanda, nº 22, na cidade  de Campos. O empreendimento foi inaugurado pelo português José Vaz Correia Coimbra. “Havia na época um porto importante na região – o Cais do Imperador na foz do no rio Paraíba do Sul –, que trouxe muitas famílias portuguesas para cá”, explica Ronaldo Sobral, atual proprietário da loja. “Graças a isso, havia uma demanda por livros importados de Portugal”.

Cento e sessenta e oito anos depois, o cais não existe mais, as famílias portuguesas se tupinicanizaram e o Brasil já produz seus próprios livros, mas a livraria Ao Livro Verde continua de portas abertas na rua Governador Teotônio Ferreira de Araújo, nº 66. Mudou de endereço, pensariam os mais incautos. Mas não – foi a rua que mudou de nome e de numeração. A livraria segue onde sempre esteve e é a mais antiga livraria do Brasil em funcionamento. Na Livro Verda tem uma variada exposição de livros de autores campistas e que falam sobre Campos.. E Ronaldo é gente muito boa, atendendewndo à todos com muita atenção.
É bem verdade que possui uma grande área dedicada a produtos de papelaria e oferece uma gama de produtos bastante variada e nem sempre diretamente ligada ao livro. Mas a realidade é que a Ao Livro Verde já nascera assim e, em tempos de desafios para as livrarias independentes, parece encontrar em suas origens uma forma de sobreviver. Como o jornal O Monitor Campista noticiou na época da abertura da loja, o estabelecimento oferecia, além de livros, “...perfumarias, miudezas, livros pautados e em branco, um lindo sortimento de jóias do último gosto, drogas medicinais e para pintura...”, além de comercializar, como não podia deixar de ser, “o verdadeiro rapé Bernardes”, que supria, nos idos de 1844, a falta do similar Princesa de Lisboa.

Mas Ronaldo Sobral, cuja família é proprietária da livraria há 80 anos, não olha apenas para o passado. “Nossa loja virtual sai ainda este ano no ar”, explica o livreiro, ao lado do cyber café que já existe na loja física e de olho no futuro. Até já existe algum movimento no www.aolivroverde.com.br, embora o catálogo ainda não esteja no ar. Mas o que importa é que lá no alto da página já estão publicadas, com muito orgulho, as palavras “Desde 1844”.

Abaixo republicamos a íntegra da notícia sobre a abertura da livraria Ao Livro Verde publicada em O Monitor Campista. Mantivemos a grafia da época:

“Loja do livro verde, rua da Quitanda n. 22
José Vaz Correia Coimbra e C.ª, annuncião ao respeitável publico que acabão de abrir sua casa de negocio, com a denominação acima especificada, na qual se acha para vender o seguinte: um variado sortimento de obras e mais pertences para escolas de instrucção primariae secundaria de latim e francez, bem como novellas, historias e romances; musica de cantoria e para pianno, e vários instrumentos de corda e sopro; papel almço e de peso de differentes qualidades, dito de Hollanda, e outros accessorios para escriptorio; perfumarias, miudesas, livros pautados e em branco, um lindo sortimento de jóias do ultimo gosto, drogas medicianaes e para pintura, broxas e papelão de números sortidos, o verdadeiro rapé Bernardes, que já supre a falta do princesa de Lisboa, excellente chá hisson, bem como outros muitos artigos que se hão de annunciar. Os annunciantes se propõem a servir e por preços razoáveis, as pessoas que queirão honrar com sua confiança.”




O MILAGRE


 Texto escrito por Áurea Magalhães

A casa de Vera é muito bem arrumada, televisão com parabólica, ventiladores, banheiro de luxo, chuveiro quente, plantas naturais, decorando a sala. O jardim, cuidado por Dona Vitória, com predominância do verde das samambaias gigantes, contrastava  com o vermelho rubro  do flamboyant florescido. O vento da praia soprava pelas janelas, trazendo mais ar puro e tranqüilidade para o ambiente.
 Abastecemos a geladeira para maior comodidade dos visitantes. Quando lá chegamos, à noite  com toda a comitiva, ouvimos do casal: _"Hotel de cinco estrelas!"
 A visitante ficou impressionada com a nossa hospitalidade e sentimos o maior alívio com aquela instalação. Na programação turística, oferecida aos visitantes, fez parte a história sobre o Pontal, a destruição do mar, a Ilha da Convivência, os holandeses, a pesca , a  Igreja da Penha, São João da Barra, o conhaque, etc. Henrique, como bom motorista, passou por esses locais a 70 km. Foi um vapt... vupt....
Célia insistia que eu contasse toda a história de Atafona e sua destruição, com riqueza de detalhes, mas Henrique não dava tempo para nós. Mostramos os estragos causados pelo mar, casas soterradas, ferros dentro d'água
e avançamos, com certo exagero em informações, sobre as próximas ressacas.

Os amigos, com os olhos esbugalhados, nos ouviam, impressionados, deixando transparecer pavor em suas expressões com os fatos relatados e manifestaram o desejo de se afastar do local, de imediato.
 Célia ofereceu à visitante, uma peça artesanal em conchas, feita pelos moradores da localidade. Uma verdadeira obra de arte! O gesto   e as palavras de Célia emocionaram a todos.
 Á noite, após um jantar oferecido por Henrique, num dos restaurantes de Grussaí, retornaram a Atafona, para um merecido  descanso. Ficamos sabendo que o magistrado não conseguiu dormir, receoso do mar avançar e passar por  cima  deles, em casa de Vera, por isso, mal amanheceu, pularam da cama e retornaram a Grussaí.
 Tomamos nossos postos na cozinha, para adiantar o almoço, que segundo Célia, seria uma culinária espanhola preparada por Dona Maria  e que encheu os olhos da visitante, despertando o desejo de ficar para o almoço.
 O calor era grande e o visitante, já sem camisa, andava impaciente pela varanda, quando a babá com os olhos arregalados, me chamou no canto e, sigilosamente, balbuciou no meu ouvido:
_O velho mor-reu!....
 Fiquei estatelada, sem querer acreditar, mas ela foi categórica e pediu para não contar a ninguém  que ela tinha revelado a tragédia. Aliás, foi a  primeira e única vez que a babá falou durante  os quinze dias que permaneceu entre nós.
 Atônita, vi o ancião esticado no sofá, de alvenaria, cadavérico, com as mãos entrelaçadas no peito, dando os últimos suspiros. Henrique espiava constrangido, atrás da porta. Célia, com a cara enfiada pela janela, estava apatetada. Dona Maria, olhando de longe só pronunciou:
_Xiiii!...
Heloizinha  olhava de canto e fingia que estava tudo bem.
A nobre visitante, sentada ao lado do esposo, colocava um comprimido embaixo da língua do enfartado, com a esperança de um milagre. Alguém abriu uma caixa de  bombons e esmigalhou, entre os dedos, e o colocou na boca do velho senhor, como intuito dele recuperar  as energias.                                 
Avisei a Célia, que ia atrás de uma ambulância para socorrê-lo e percebi que ela se reanimou com minha iniciativa. Sabia que achar esse socorro seria mais ou menos procurar uma agulha nas areias da praia. Nervosamente, me dirigi para a rua, sem saber para que lado correr, quando vi o caminhão dos paraibanos que vendem redes, com seu  possante  alto-falante a oferecer com o sotaque nortista a  sua mercadoria.
 A minha preocupação era remover imediatamente o corpo, para que não causasse um impacto maior entre todos  e o caminhão  era a salvação. Com suas redes, toalhas, estaria pelo menos, mais aconchegante para levar o corpo mais dignamente  e nem sabia para onde,  naquele momento.
 Atravessei a rua, correndo, e pulei na frente do veículo, gritando desesperadamente, para que parassem.
  Os ocupantes já desceram com suas mantas penduradas nos baços, abrindo redes, anunciando fraldas a R$10,00, numa gritaria enorme, com seu vocabulário regional, jogando tudo em cima de mim e descendo os preços para sugestionarem na venda. Esses comerciantes, peritos na arte do comércio, são capazes de levar horas argumentando nos preços. Foi assim que Célia me viu, rodeada pelos homens, com pacotes de fraldas caindo das minhas mãos e completamente absorvida  entre eles. Célia, com seu jeito espalhafatoso e me espinafrando esbravejou;
_ O que está fazendo aqui?O homem está morto e cadê a ambulância?
  Foi aí que voltei a realidade e, desolada, procurei esclarecer: _Mania de consumismo....
 De repente, vi Célia  subir na carroceria do veículo e se contagiando com a propaganda dos nordestinos, passou a comprar toalhas.
Dona Maria correu a nossa procura e se enfiou no meio das mercadorias, em busca de uma rede amarela.
Quando retornamos à casa parecíamos três loucas, cheias de compras, e vimos a quase vítima mexer os pés, as mãos e ficamos aliviadas  com a recuperação milagrosa do ancião.
 Colocamos o almoço na mesa, que não tinha nada de culinária espanhola e o ancião visitante comeu tanto que chegamos a conclusão de que o velho ouviu muita conversa e que  quase morreu foi de fome.
 Nas despedidas, a visitante abraçou  eu e Célia, dizendo, para nossa surpresa:
_ Vocês são maravilhosas! Vamos visitá-las em Uruana.
Dessa  vez, fomos nós que quase enfartamos.                      

Por que Edir Macedo e a Igreja Católica perderam fiéis e por que a Assembleia de Deus ganhou


(do Blog do Reinaldo Azevedo/Veja)
Contribuição de Eusébio Galvão Queirós

Parodiando certo velho barbudo e fazendo um gracejo — espero que eles não fiquem bravos comigo…—, os sociólogos já explicaram o mundo o bastante, agora chegou a hora de compreendê-lo… É preciso tomar cuidado com o preconceito porque ele impede que se entenda o essencial. Eu me incomodo com certa leitura que associa a expansão dos evangélicos à ignorância. Acho que isso mais desinforma do que informa. Há um dado que vocês têm de reter aí para a leitura deste texto porque voltarei a ele: na última década, a corrente evangélica que mais cresceu foi a Assembleia de Deus. Já a Universal do Reino de Deus, do autoproclamado “bispo” Edir Macedo, perdeu 228 mil fiéis. Seus anunciados mais de 3 milhões de fiéis são 1,873 milhão — os da Assembleia são 12,314 milhões (5,6 vezes a mais). Sigamos.
Movidos por certa paixão iluminista que os deixa cegos de tanta luz, os especialistas tendem a associar a expansão dos evangélicos ao triunfo do engodo e da pilantragem. Os fiéis seriam, assim, pessoas enganadas, que se deixam seduzir por falsas promessas e por milagreiros vigaristas. Eles existem? Sim! Estão presentes na religião, na política, na economia, no jornalismo, em qualquer lugar. Afirmar, por exemplo, que uma família com renda per capita acima de R$ 300 pertence à “classe média”, como deram para fazer certos economistas, não deixa de ser uma variante da magia sub-religiosa, não é? Esses economistas, que quase acabaram com a pobreza no Brasil na base da feitiçaria estatística, operam muito mais “milagres” do que qualquer vigarista religioso… Mas não quero me desviar do essencial.
Se faz sentido associar a expansão dos evangélicos no Brasil às mudanças havidas na sociedade nos últimas 30 anos — como elevação dos aglomerados urbanos, drástica redução da população rural, intensa migração interna —, é preciso que se entenda que essa “modernização” trouxe consigo, vejam que interessante, a demanda pela TRADIÇÃO E PELA ORDEM. O que quero dizer com isso? Se os brasileiros que se deslocaram do campo para as cidades perderam seus vínculos originais com a família, tendem, deixados à própria sorte, a se tornar zumbis nas periferias. Isso os leva a buscar uma força que os agregue e que os faça PERTENCER a uma comunidade. Por que não as igrejas evangélicas?
Agora volto lá ao primeiro parágrafo. Quem se ocupa um pouco de estudar o fenômeno ou de ler a respeito sabe que as Assembleias de Deus — há várias correntes sob essa denominação, que não obedece a uma hierarquia única, como a Católica — não são propriamente igrejas “milagreiras”. Não vemos seus pastores a anunciar na televisão a cura de moléstias graves ou a expulsar demônios em ritos midiático-espetaculosos. É evidente que, a exemplo de todas as denominações cristãs, associam a salvação à fé e acreditam na intervenção da Providência. Mas a sua pregação, ATENÇÃO!, está muito mais centrada na defesa de VALORES, especialmente os ligados à unidade da família. Se é uma igreja que cresce no chamado “Brasil moderno e urbano”, esse crescimento se dá com a pregação de valores que podemos chamar “tradicionais”.
Penso agora um pouco na Igreja de Edir Macedo. Na década em que a sua TV Record se tornou, vá lá, bastante “mundana” — a Internet está aí para provar que o reality show “A Fazenda” pode chocar até o mundo animal… —, ela perdeu fiéis. Se houve, como constata o IBGE, uma perda de 228 mil fiéis, trata-se de uma queda acentuada: 11%. É bem verdade que, no período, outras correntes se formaram, como a Igreja Mundial do Poder de Deus, por exemplo, que se desgarrou da própria Universal. Certamente levou parte dos seus fiéis, daí a existência de um conflito muito pouco pio e cristão entre Edir Macedo e Valdemiro Santiago, o bem-sucedido dissidente. Precisaria de mais dados, mas me parece que essas correntes mais midiáticas operam entre si uma troca de fiéis. Parte, portanto, do rebanho transita no mercado do divino ao sabor, também, da propaganda.
A Assembleia, infiro, tende a crescer de forma sustentável e consolidada porque opera numa esfera que produz alterações que tendem a ser permanentes. As correntes que dão excessivo valor às relações de troca com Deus podem ter ascensão vertiginosa, mas esbarram, não tem jeito, no peso da realidade. O Altíssimo não sai por aí recompensando quem faz muita bobagem com sua conta bancária. Também não costuma resolver os problemas que estão afeitos à medicina. A força desse tipo de discurso é limitada.
Catolicismo
E o catolicismo? A coisa é complicadíssima! Não é de hoje, fazendo uma brincadeira, que a Igreja Católica tenta fundir o Deus cristão com Aristóteles, não é mesmo? Embora a força de uma religião seja a sua mística, a Santa Madre sempre tentou emular com a ciência. Converse com o teólogo católico o mais pio, e boa parte do tempo você estará diante de um racionalista incorrigível. Há muito o catolicismo renunciou à intervenção maravilhosa do divino. O catolicismo se tornou, e não acho isso ruim necessariamente, uma ética, uma forma de ver o mundo e de se relacionar com ele. Nesse particular, assemelha-se, sim, ao protestantismo tradicional — que também não cresce, note-se — e à Assembleia de Deus, que se expande.
E por que perde influência e prestígio? Os ditos “Teólogos da Libertação” — na verdade, “escatológicos da libertação” — não hesitariam em afirmar que a Igreja precisa, vamos lá, “se aproximar mais do povo”, “estar mais atenta às suas necessidades”, “associar-se à luta por seus direitos”, essa bobajada toda! A Igreja Católica, a minha Igreja, entrou de modo errado nesse tal “mundo moderno”. Se manteve o apego a alguns fundamentos que certos tolos dizem “reacionários”, renunciou à defesa da tradição e dos valores em nome da “mudança da sociedade”. Num outro extremo, foi invadida por alguns vigaristas que confundem o púlpito com palco.
Ou por outra: a Igreja Católica perde influência quando, numa ponta, tenta ser o que não é — “partido político progressista” — e, na outra, abrigo de vocações duvidosas, mais ligadas ao espetáculo do que à fé. Em qualquer dos casos, deixa de atuar como uma força de orientação e de coesão das famílias — discurso muito presente mesmo nas vertentes pentecostais mais espalhafatosas.
À diferença do que parece, a Igreja Católica perde fiéis não porque seja muito tradicionalista, mas porque se desapegou da tradição, mantendo-a não mais do que na plasticidade meio aborrecida das missas, nas quais é dada pouca chance ao pastor (o padre) de falar verdadeiramente aos fiéis. No que é tradicional, é não mais do que burocrática; ao deixar de ser burocrática, esquece a virtude da tradição em favor de um discurso desastradamente político.
Em síntese: faz sentido que tanto a Igreja Católica quando Edir Macedo tenham perdido fiéis — proporcionalmente, ele perdeu muito mais. Nos dois casos, a tradição mandou um recado à mundanização.