segunda-feira, 4 de junho de 2012

A Vida Passa


A VIDA PASSA
Agenor Portelli Teixeira Magalhães

Numa das últimas antologias do Entre Nós, Luiz selecionou um texto admirável escrito por papai, em que ele, no outono da vida, voltou o pensamento à criança que foi revivendo os tempos idos. Meu primo pastor Kleos escreveu um livro: Já fui jovem, hoje sou velho e daí? Nesse livro ele reage ao  desdém com que algumas pessoas tratam os idosos, que usam expressões como: puxa como você está velho!
Nos últimos  anos escrevi para nossos encontros pequenas historietas dos tempos de criança. 
Depois que a idade avançada chega deixamos de viver novas historias, tudo agora é função do passado, o hoje perde importância e o que fizemos ou deixamos de fazer passa a ser o sentido da nossa existência. A nostalgia vem, as dificuldades físicas e pequenos problemas de saúde se manifestam e então o que nos resta são as peraltices, as estripulias, façanhas, vitórias e derrotas que marcaram nosso corpo e nosso coração infanto-juvenil. Porque fiz isso ou deixei de fazer aquilo é o renascer da vontade de reescrever nossa historia a partir do conhecimento e discernimento que adquirimos em experiências ao longo dos anos de amadurecimento.
Quando olho para Heloísa ao meu lado, ainda cheia de vida e energia, estou vendo aquela menina com seus dezoito anos e um incisivo fraturado. É inacreditável que o tempo tenha passado tão rápido, as lembranças estão tão vivas como se tivéssemos dado um pulo enorme no tempo.
Alquebrado, vejo as mãos ainda ágeis de Heloisa, ora alinhavando os tecidos que a ocupam dia e noite, intercalados com cochilos, ora fazendo afagos nas netas.  Olho para minhas mãos e vejo a pele enrugada, encardida e ressecada mostrando a irreversibilidade do ciclo da vida.
Com os olhos de menino vejo vovó sentada na cadeira de balanço cerzindo desgastadas meias a ouvir a novela pelo velho rádio enquanto vovô cochila na rede entre um pigarro e outro que assusta a fiel cadela.
Pela janela do velho hotel de Conservatória aguardo a chegada do trem na estação que se anuncia com apitos na entrada do túnel. O relógio da mesinha de cabeceira indica cerca de dezoito horas.  A decepção estampa na minha  face de menino, ao silêncio na estação, solto as lagrimas incontidas. Dias, semanas de espera, não dá para saber, os chutes nos pintinhos do José Nossar são a única reação possível, uma vingança, quem sabe.
As escaladas no morro atrás da estação para fincar a bandeira nacional e os passeios pelo rio e a travessia pelas pinguelas estreitas são as últimas lembranças de criança naquele vilarejo esquecido no tempo.
Pela porta aberta da sala, recostado no surrado sofá, na mesma velha piscina que vi crescer os filhos agora assisto ao sorriso das netas a se banharem, testemunhas  que a vida está passando.
Termino com um poema encontrado no bolso do advogado de Al Capone, Easy Eddie, morto em um tiroteio em uma rua de Chicago:

“O relógio da vida recebe corda apenas uma vez
 E nenhum homem tem o poder de decidir quando os ponteiros
 pararão, se mais cedo ou mais tarde.
 Agora é o único tempo que você possui.
 Viva, ame e trabalhe com vontade.
 Não ponha nenhuma esperança no tempo, pois o relógio pode parar
 a qualquer momento.”

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Chico Anysio, no Céu.







Descomplicar


Texto atribuído à Leila Ferreira, jornalista.
Contribuição de Lúcia Marina Galvão de Queirós

Se eu tivesse que escolher uma palavra - apenas uma - para ser item obrigatório no vocabulário da mulher de hoje, essa palavra seria um verbo de quatro sílabas:
            
"DESCOMPLICAR."
Depois de infinitas (e imensas) conquistas, acho que está passando da hora de aprendermos a viver com mais leveza: exigir menos dos outros e de nós próprias, cobrar menos, reclamar menos, carregar menos culpa, olhar menos para o espelho.
Descomplicar talvez seja o atalho mais seguro para chegarmos à tão falada qualidade de vida que queremos - e merecemos - ter.
Mas há outras palavras que não podem faltar no kit existencial da mulher moderna.

Amizades, por exemplo....
 Acostumadas a concentrar nossos sentimentos (e nossa energia...) nas relações amorosas, acabamos deixando as amigas em segundo plano.
E nada, mas nada mesmo, faz tão bem para uma mulher quanto a convivência com as amigas. Ir ao cinema com elas (que gostam dos mesmos filmes que a gente), sair sem ter hora para voltar, compartilhar uma caipivodca de morango e repetir as histórias que já nos contamos mil vezes - isso, sim, faz bem para a pele.
Para a alma, então, nem se fala.
Ao menos uma vez por mês, deixe o marido ou o namorado em casa, prometa-se que não vai ligar para ele nem uma vez (desligue o celular, se for preciso) e desfrute os prazeres que só uma boa amizade consegue proporcionar.
E, já que falamos em desligar o celular, incorpore ao seu vocabulário duas palavras que têm estado ausentes do cotidiano feminino: pausa e silêncio.
Aprenda a parar, nem que seja por cinco minutos, três vezes por semana, duas vezes por mês, ou uma vez por dia - não importa - e a ficar em silêncio.
Essas pausas silenciosas nos permitem refletir, contar até 100 antes de uma decisão importante, entender melhor os próprios sentimentos, reencontrar a serenidade e o equilíbrio quando é preciso.
Também abra espaço, no vocabulário e no cotidiano, para o verbo rir.
Não há creme anti-idade nem botox que salve a expressão de uma mulher mal-humorada. Azedume e amargura são palavras que devem ser banidas do nosso dia a dia.
Se for preciso, pegue uma comédia na locadora, preste atenção na conversa de duas crianças, marque um encontro com aquela amiga engraçada - faça qualquer coisa, mas ria. O riso nos salva de nós mesmas, cura nossas angústias e nos reconcilia com a vida.
Quanto à palavra dieta, cuidado: mulheres que falam em regime o tempo todo costumam ser péssimas companhias. Deixe para discutir carboidratos e afins no banheiro feminino ou no consultório do endocrinologista. Nas mesas de restaurantes, nem pensar.
Se for para ficar contando calorias, descrevendo a própria culpa e olhando para a sobremesa do companheiro de mesa com reprovação e inveja, melhor ficar em casa e desfrutar sua salada de alface e seu chá verde sozinha.
Uma sugestão? Tente trocar a obsessão pela dieta por outra palavra que, essa sim, deveria guiar nossos atos 24 horas por dia: gentileza.
Ter classe não é usar roupas de grife: é ser delicada.
Saber se comportar é infinitamente mais importante do que saber se vestir.
Resgate aquele velho exercício que anda esquecido: aprenda a se colocar no lugar do outro, e trate-o como você gostaria de ser tratada, seja no trânsito, na fila do banco, na empresa onde trabalha, em casa, no supermercado, na academia.

E, para encerrar, não deixe de conjugar dois verbos que deveriam ser indissociáveis da vida: sonhar e recomeçar.

Sonhe com aquela viagem ao exterior, aquele fim de semana na praia, o curso que você ainda vai fazer, a promoção que vai conquistar um dia, aquele homem que um dia (quem sabe?) ainda vai ser seu, sonhe que está beijando o Brad Pitt...sonhar é quase fazer acontecer. Sonhe até que aconteça.

E recomece, sempre que for preciso: seja na carreira, na vida amorosa, nos relacionamentos familiares.
A vida nos dá um espaço de manobra: use-o para reinventar a si mesma.
E, por último (agora, sim, encerrando), risque do seu Aurélio a palavra perfeição.
O dicionário das mulheres interessantes inclui fragilidades, inseguranças, limites.
Pare de brigar com você mesma para ser a mãe perfeita, a dona de casa impecável, a profissional que sabe tudo, a mulher nota mil.

Acima de tudo, elimine de sua vida o desgaste que é tentar ter coxas sem celulite, rosto sem rugas, cabelos que não arrepiam, bumbum que encara qualquer biquíni.
Mulheres reais são mulheres imperfeitas.
E mulheres que se aceitam como imperfeitas são mulheres livres.
Viver não é (e nunca foi) fácil, mas, quando se elimina o excesso de peso da bagagem (e a busca da perfeição pesa toneladas), a tão sonhada felicidade fica muito mais possível.
Se voce puder mandar a todas as mulheres lindas e maravilhosas que fazem parte da tua vida, mande...
 e para aqueles homens que também fazem a alegria de seus dias,( e noites....) não hesite!

segunda-feira, 28 de maio de 2012

O que as mulheres fazem quando estão com elas mesmas


Texto de autoria de Ivan Martins, diretor executivo da Revista Época.
Colaboração de Lúcia Marina Galvão de Queirós

Ontem eu levei uma bronca da minha prima. Como leitora regular desta coluna, ela se queixou, docemente, de que eu às vezes escrevo sobre “solidão feminina” com alguma incompreensão.
Ao ler o que eu escrevo, ela disse, as pessoas podem ter a impressão de que as mulheres sozinhas estão todas desesperadas – e não é assim. Muitas mulheres estão sozinhas e estão bem. Escolhem ficar assim, mesmo tendo alternativas. Saem com um sujeito lá e outro aqui, mas acham que nenhum deles cabe na vida delas. Nessa circunstância, decidem continuar sozinhas.
Minha prima sabe do que está falando. Ela foi casada muito tempo, tem duas filhas adoráveis, ela mesma é uma mulher muito bonita, batalhadora, independente – e mora sozinha.
Ontem, enquanto a gente tomava uma taça de vinho e comia uma tortilha ruim no centro de São Paulo, ela me lembrou de uma coisa importante sobre as mulheres: o prazer que elas têm de estar com elas mesmas.
“Eu gosto de cuidar do cabelo, passar meus cremes, sentar no sofá com a cachorra nos pés e curtir a minha casa”, disse a prima. “Não preciso de mais ninguém para me sentir feliz nessas horas”.
Faz alguns anos, eu estava perdidamente apaixonado por uma moça e, para meu desespero, ela dizia e fazia coisas semelhantes ao que conta a minha prima. Gostava de deitar na banheira, de acender velas, de ficar ouvindo música ou ler. Sozinha. E eu sentia ciúme daquela felicidade sem mim, achava que era um sintoma de falta de amor.
Hoje, olhando para trás, acho que não tinha falta de amor ali. Eu que era desesperado, inseguro, carente. Tivesse deixado a mulher em paz, com os silêncios e os sais de banho dela, e talvez tudo tivesse andado melhor do que andou.

Ontem, ao conversar com a minha prima, me voltou muito claro uma percepção que sempre me pareceu assombrosamente evidente: a riqueza da vida interior das mulheres comparada à vida interior dos homens, que é muito mais pobre.

A capacidade de estar só e de se distrair consigo mesma revela alguma densidade interior, mostra que as mulheres (mais que os homens) cultivam uma reserva de calma e uma capacidade de diálogo interno que muitos homens simplesmente desconhecem.

A maior parte dos homens parece permanentemente voltada para fora. Despeja seus conflitos interiores no mundo, alterando o que está em volta. Transforma o mundo para se distrair, para não ter de olhar para dentro, onde dói.

Talvez por essa razão a cultura masculina seja gregária, mundana, ruidosa. Realizadora, também, claro. Quantas vuvuzelas é preciso soprar para abafar o silêncio interior? Quantas catedrais para preencher o meu vazio? Quantas guerras e quantas mortes para saciar o ódio incompreensível que me consome?

A cultura feminina não é assim. Ou não era, porque o mundo, desse ponto de vista, está se tornando masculinizado. Todo mundo está fazendo barulho. Todo mundo está sublimando as dores íntimas em fanfarra externa. Homens e mulheres estão voltados para fora, tentando fervorosamente praticar a negligência pela vida interior – com apoio da publicidade.

Se todo mundo ficar em casa com os seus sentimentos, quem vai comprar todas as bugigangas, as beberagens e os serviços que o pessoal está vendendo por aí, 24 horas por dia, sete dias por semana? Tem de ser superficial e feliz. Gastando – senão a economia não anda.

Para encerrar, eu não acho que as diferenças entre homens e mulheres sejam inatas. Nós não nascemos assim. Não acredito que esteja em nossos genes. Somos ensinados a ser o que somos.

Homens saem para o mundo e o transformam, enquanto as mulheres mastigam seus sentimentos, bons e maus, e os passam adiante, na rotina da casa. Tem sido assim por gerações e só agora começa a mudar. O que virá da transformação é difícil dizer.

Mas, enquanto isso não muda, talvez seja importante não subestimar a cultura feminina. Não imaginar, por exemplo, que atrás de toda solidão há desespero. Ou que atrás de todo silêncio há tristeza ou melancolia. Pode haver escolha.

Como diz a minha prima, ficar em casa sem companhia pode ser um bom programa – desde que as pessoas gostem de si mesmas e sejam capazes de suportar os seus próprios pensamentos. Nem sempre é fácil.


 


sexta-feira, 25 de maio de 2012

Vamos Falar de Deus?


A EXISTÊNCIA DE DEUS
                                           Agenor Portelli Teixeira Magalhães


Talvez meu maior sonho seja um disco voador pousando na terra e trazendo seres extraterrestres inteligentes. Sei que os monoteístas torcem para isso não acontecer, pois temem que as escrituras sagradas percam sua credibilidade. Deus teria criado a terra e o ser humano com exclusividade no nosso planeta. A existência de dois mundos habitáveis destruiria a teoria da criação. Não é bem assim, dois mundos em paralelo, em minha opinião, reforçariam a presença de uma força criadora divina. As condições que propiciaram o início da vida na terra não teriam probabilidade de ocorrer outra vez se não houvesse um método criativo.
Quando escrevi Os Gênios do Gênesis há cerca de cinco anos, enviei o texto para meia dúzia de pastores e a alguns amigos. Um dos pastores que o recebeu remeteu para um especialista em história religiosa para comentar meu trabalho. Nenhum respondeu, exceto o filho de um pastor que recusou as comparações que fiz entre a criação do mundo sob o enfoque bíblico e o big bang da ciência. Disse ele com outras palavras que o universo é tão perfeito que não poderia ser obra do acaso.
Passados três anos, o jurista Ives Gandra, em artigo no JB, intitulado Fiat Lux, resumiu minha teoria comparativa tal qual eu havia elaborado, sem reconhecer meus créditos, ou por desconhecer o meu trabalho ou por uma coincidência incrível, já que expôs de forma tão semelhante o meu raciocínio primordial. Mais recentemente, tornou-se comum encontrar em artigos sobre o universo e o big bang menção a semelhanças entre a narrativa bíblica da criação e o átomo original que desencadeou a formação do céu, da terra, das águas, enfim do universo. Tenho o direito de acreditar que estou formando discípulos.
O escritor e colunista do JB Fausto Wolf, que sempre faço questão de frisar, era um comunista de primeira linha, mas que entre um texto e outro celebrava a existência de Deus com respeito, embora não demonstrasse claramente sua crença. Pois bem, em um dos seus últimos escritos publicados no jornal em agosto de 2008, antes de morrer, ele faz uma descrição da criação divina muito parecida com Os Gênios do Gênesis, considerando que entre um feito e outro Deus dormia milhões de anos. Ao invés da formula matemática que exprimi em torno do número místico 7, ele usou de sutileza, debitando o intervalo homérico de tempo a um sono profundo do Criador.
Ao contrário do que muitos leigos pensam a respeito do universo, achando que tudo já foi decifrado e explicado por Einstein e sua teoria da relatividade, e descrito por Timothy Ferris, a verdade é que nada sabemos sobre nós mesmos e sobre esse cosmos inexplicável. O acelerador de partículas criado por cientistas franceses e suíços, para confirmar a existência da partícula bóson de Higgs, deverá reproduzir as condições existentes no cosmos um trilionésimo de segundo depois do Big Bang e vai comprovar o que já sabemos, pelo menos eu sei: Deus é o Bóson de Higgs. Se o bóson não surgir, como muitos cientistas torcem para não acontecer, a comprovação da existência de Deus fica adiada até que novas teorias surjam sobre a criação do universo.

quarta-feira, 23 de maio de 2012

D'ALÉM MAR JÁ HOUVE... E D'AQUÉM, HAVERÁ TAMBÉM?

 
CONTRIBUIÇÃO DE TALITA BATISTA. 
 
QUE, COMO NÓS, SEUS COMPANHEIROS NESTE BLOG, ESTÁ LAMENTANDO E RATIFICANDO A SENSAÇÃO QUE TEMOS DE UM ESTADO QUE SE ANULA, ENQUANTO AS INSTITUIÇÕES SE DESMORONAM.

sábado, 19 de maio de 2012

Verdade dos fatos por Reinaldo Azevedo

PULICADO EM 16 DE MAIO DE 2012, NA REVISTA VEJA.
OUTRA VISÃO SOBRE A"COMISSÃO DA VERDADE:QUANDO A SUPOSTA DIALÉTICA DA HISTORIA VIRA DISCURSO ESQUIZOFRÊNICO" OU  "A GRANDE FALHA LÓGICA DO DISCURSO DA PRESIDENTA".

Caras e caros, de braços dados com a história e a lógica, acho que escrevi o meu melhor texto sobre a Comissão da Verdade. Avaliem.
*
A presidente Dilma Rousseff realizou hoje a solenidade de instalação da dita “Comissão da Verdade” (ver post anterior). Escrevi nesta manhã
um longo texto a respeito. Também a mim não me moveu o revanchismo! Até porque tomei algumas bordoadas na luta pela redemocratização do país e tive de aguentar um “agente do regime” no meu pé quando tinha meros 16 anos… Não fui torturado como Dilma nem me tornei o burguês das lutas alheias, como o companheiro “ApeDELTA”, que nunca sofreu, felizmente, um arranhão, embora receba pensão permanente por ter sido “molestado” pela ditadura. A grana deve andar, aí, em torno de R$ 6 mil por mês. Continuo o apaixonado de sempre pelos fatos — aos 16, a minha perspectiva era certamente outra, mas já me incomodava a ideia de que o Estado pudesse sufocar os indivíduos com as suas verdades, a despeito dos… fatos! Por isso me fiz, vamos dizer assim, um “rebelde”. Por isso continuo, vamos dizer assim, um “rebelde”.
Eu me dei conta esses dias de que fui crítico, a cada hora numa trincheira, de todos os governos de Geisel pra cá. E, hoje, costumo bater boca, ainda que indiretamente, com sumidades que apoiaram todos os governos — de Geisel pra cá!!! São mais inteligentes do que eu, claro! O “progressismo” já fez verdadeiros milionários no Brasil. Fui de esquerda quando dava prejuízo. Deixei de sê-lo quando passou a dar lucro! Sujeito burro!!!
Sim, o tempo foi me convencendo, e já há muito é uma convicção da qual não abro mão, de que a democracia é mesmo o pior regime de governo possível, com a exceção de todos os outros, como disse aquele do uísque com charuto… Não é o modelo perfeito, mas é o que permite, ao menos, tratar as diferenças sem ter de avançar no pescoço alheio. Na democracia, “pacta sunt servanda“. E fim de papo! Vale o combinado. Os acordos têm de ser cumpridos. Os contratos não podem ser desrespeitados.
É o contrário do que pensa boa parte — se é que não se fala da totalidade — das esquerdas. Costumam apelar à chamada “dialética da história” para sustentar que leis, mesmo democraticamente instituídas, podem e devem ser desrespeitadas se essa for “a vontade da sociedade”. Chamam de “vontade da sociedade” a pauta que elas próprias definem. Dos 16 aos, mais ou menos, 21, também cheguei a acreditar nisso. Quando descobri que era a porta de entrada de todos os males do mundo; quando me dei conta de que essa perspectiva correspondia à morte do humanismo — à medida que ela não comporta qualquer princípio inegociável —, caí fora! Constatei que se tratava de um mal superior àqueles outros que eu combatia (e que continuo a combater) porque, em nome da resistência e de um mundo alternativo, então tudo era possível. Se me era dado combater o que considerava “imoralidade alheia” com a ausência da moral (coisa de “burgueses”), então a diferença entre “nós” e “eles” é que o mal que preconizávamos não tinha limites. A nossa vantagem comparativa estava em surpreendê-los usando seus métodos detestáveis e indo muito além. É claro que passei a repudiar essa visão de mundo de modo absoluto.
Pois bem. Dilma instalou nesta quarta a Comissão da Verdade. Negou a perspectiva revanchista, embora as declarações de pelo menos três membros do grupo — Maria Rosa Cardoso da Cunha, Paulo Sérgio Pinheiro e Maria Rita Kehl — afrontem de forma clara o texto da lei. Dizem com todas as letras — e contra a letra legal, reitero — que o objetivo da comissão é apurar as transgressões aos direitos cometidas apenas por um dos lados. A Comissão da Verdade não reconheceria (e não reconhecerá), assim, as mais de 120 vítimas que as esquerdas também fizeram no país. É mentira, mentira absoluta, que toda a cadeia de comando que resultou nessas mortes tenha sido identificada. Ao contrário até: assassinos notórios, ou seus partidários, passaram a receber, diretamente ou por meio de familiares, indenização do estado. Não adianta me xingar, me ofender, nada disso. Se puderem, neguem a evidência. Se não puderem, tenham ao menos a coragem de defender que alguns são maus assassinos, e outros, bons assassinos.
No discurso de instalação da comissão, afirmou a presidente:
“Ao instalar a Comissão Nacional da Verdade, não nos move o revanchismo, o ódio ou o desejo de reescrever a história de forma diferente do que aconteceu, e sim a necessidade imperiosa de conhecê-la em sua plenitude, sem ocultamentos, sem vetos. É a celebração da transparência da verdade de uma nação que vem trilhando um caminho da democracia. O Brasil deve render homenagens a mulheres e homens que lutaram pela revelação da verdade histórica. O direito à verdade é tão sagrado quanto o direito de famílias de prantear pelos seus entes queridos. Reverencio os que lutaram contra a truculência ilegal do estado e também reconheço e valorizo os pactos políticos que nos levaram à redemocratização”.
Parece bom, mas é a esquizofrenia histórica se fingindo de dialética. Se é mesmo uma história “sem ocultamentos”, então a verdade sobre alguns grupos tratados como defensores da democracia tem de ser devidamente caracterizada. Não é possível que organizações como Colina, VPR e VAR-Palmares, que a presidente conhece muito bem, sejam alçadas à condição de heroínas do regime democrático. Atenção! Nada, nada mesmo, justifica que um agente do estado resolvesse fazer “justiça” com as próprias mãos! Condenar esse expediente, no entanto, não muda a convicção daqueles que queriam uma ditadura socialista no Brasil. E, em nome disso, também mataram. Se a inocência não era um limite para os torturadores e agentes dos porões, foi, por acaso, limite para muitos daqueles militantes?
Dilma diz reverenciar os que “lutaram contra a truculência legal”. Certo! Quando Larmarca, volto ao caso, esmagou o crânio de um tenente da Polícia Militar, depois de um “julgamento” feito no meio do mato por seus pares de terror, ele estava lutando “contra a truculência legal”? Quando uma associação de grupos de esquerda decidiu jogar um carro-bomba contra um quartel, fazendo em pedaços um jovem de 18 anos — Mário Kozel Filho —, tratava-se tal ação de “luta contra a truculência legal”? Quando os próprios esquerdistas assassinaram alguns dos seus, suspeitos de colaboracionismo, era “luta contra a truculência legal”?
A linguagem trai
Como é mesmo? As palavras fazem sentido!!! A gramática existe não apenas para expor a ignorância do JEG. Também é um instrumento para aclarar pensamentos. Prestem atenção a este trecho da fala da presidente:
“Reverencio os que lutaram contra a truculência ilegal do estado e também reconheço e valorizo os pactos políticos que nos levaram à redemocratização”.
Sabem os gramáticos — e preciso sempre tomar cuidado porque tenho um dos melhores entre meus leitores, Luiz Antônio Sacconi, dono de vastíssima obra na área — que a conjunção aditiva “e” pode ser empregada como conjunção adversativa, pode valer por um “mas”, a exemplo do que faz Dilma. Sua fala pode ser reescrita assim, sem que mude o sentido do que disse:
“Reverencio os que lutaram contra a truculência ilegal do estado, mas também reconheço e valorizo os pactos políticos que nos levaram à redemocratização”.
Resta evidente em sua peroração a existência de uma contradição entre “os que lutaram contra a truculência” e “os pactos políticos que nos levaram à redemocratização”. Ao optar por esse discurso, ela se revela e se trai também na esfera da linguagem. Ela se revela ao admitir que entende a Lei da Anistia como algo que caminhou no sentido contrário aos interesses daqueles supostos heróis “que lutaram contra a truculência”. Mas ela também se trai ao assumir que, satisfeita a visão de mundo daquela turma, certamente não se alcançariam os “pactos políticos que nos levaram à redemocratização”. Vale dizer, por dedução lógica inescapável: se a Lei da Anistia era incompatível com aquela turma, aquela turma era incompatível com a Lei da Anistia.
Não posso fazer nada: eu opero com categorias lógicas. Eu me nego a me deixar enrolar pela retórica oca, pela grandiloquência do… ocultamento!
Algum retórico do Planalto emprestou um coquetel de figuras de linguagem à presidente, que afirmou:
“A ignorância sobre a história não pacifica. Pelo contrário, mantém latentes mágoas e rancores. A desinformação não ajuda a apaziguar. O Brasil merece a verdade. As novas gerações merecem a verdade. Merecem a verdade factual também aqueles que perderam amigos e parentes. O Brasil não pode se furtar a conhecer a totalidade de sua história. Se tem filhos sem pais, túmulos sem corpos, nunca pode existir uma história sem voz”.
Perfeito! Se é o Brasil pacificado que instala essa “Comissão da Verdade”, então, por definição, toda a verdade tem de ser contada, também a das vítimas dos grupos terroristas — ainda que a “comissão” queira chamá-los “revolucionários” ou “amantes da democracia” (o que é mentira!). À diferença do que dizem os petralhas, aceito, sim, pontos de vista diferentes dos meus. Desde que se apontem as falhas lógicas ou as falsidades deste texto.